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Chá na Cidadela

22 fev

 

Um dos motivos deste Sátrapa estar um tanto abandonado é o projeto de Light novel que estou desenvolvendo nas horas vagas. É exaustivo, mas muito divertido. Uma forma de desenvolver melhor o background e compor a psique dos personagens, dar vida a eles e ao próprio ambiente, é escrever pequenas histórias paralelas dentro do mesmo universo — o país que tem mais de dez anos de criação, mas ainda sem nome, que é o ambiente dos Contos do Cafofo. Separei uma das histórias paralelas para publicar aqui. Deleitem-se.

 

 

A Cidadela, ilha verde de 10 hectares incrustada no meio da cinzenta Capital, inicialmente era terra de uso exclusivo da família real; hoje, aqui e ali havia residências e palacetes dos cortesãos mais próximos e seus herdeiros, além de uma ou outra celebridade disposta a pagar o preço nababesco do aluguel para algum nobre de bom nome e péssimas condições financeiras. A oeste, bairros ao redor da Cidadela concentravam a aristocracia e os endinheirados sem título de nobreza, enquanto a leste os espigões do centro compunha o horizonte cinza e denso como era de praxe no resto da Capital.

 

Perder-se na Cidadela era quase regra aos visitantes que ousassem aparecer sem um guia pela primeira vez. Vielas idênticas e extensas, calçadas com paralelepípedos de basalto, e alamedas estreitas de abetos e araucárias, nas quais a largura era suficiente para apenas um carro, eram o terror para qualquer um que não tivesse uma bússola consigo. Naturalmente, algumas residências eram famosas pelos frequentadores que “chegavam por acaso” vez ou outra, tal qual o Bangalô de Inverno da Duquesa Carmínia, A Eterna.

Não era esse o caso de Madame, é claro; o Rolls Royce branco que buscara-a um dia após o mensageiro real entregar em mãos o bilhete timbrado de Sua Majestade rumava direto ao Jardim Setentrional, a meia légua do Palácio Real.

 

Fazia cinco anos desde a última vez em que Madame fora convidada ao chá da tarde do Rei, mas parecia-lhe que tinha sido ontem, embora a mesa Luís XIV agora estivesse à sombra de um angico de plantio bem recente, e não do frondoso flamboyant que fazia estender um tapete vermelho com a queda de suas flores.

— Madame M., é sempre um prazer — o Rei a ribombou, em pé, com sua típica voz de barítono — confesso ter receado de que a senhora não fosse responder em termos favoráveis ao meu convite.

Madame inclinou a cabeça, com um meio-sorriso. A etiqueta era-lhe repugnante, mas mesmo aqueles encontros tinham um protocolo a seguir. A presença de apenas um serviçal e nenhum auxiliar ou ministro era indicativo de que sua presença, e tudo que fosse tratado no chá, seriam confidenciais. “Interessante. Tomara que seja algo lucrativo”, pensou. Ela retornou o cumprimento com atípica voz calma.

— Majestade, é sempre uma honra esta serva ser útil.

 

O Rei indicou-lhe a cadeira e acompanhou a o assistente com olhar severo, enquanto este a ajudava a sentar. Assim que ele terminou de pôr a mesa, o Rei voltou à sua cadeira e estirou as costas, relaxado. Seus olhos negros e brilhantes acompanharam sem pressa uma nuvem branca empurrada graciosamente pelo vento forte da tarde.

Madame, por outro lado, não estava muito disposta a longos e poéticos silêncios. Achou melhor entrar no assunto, seja ele qual fosse:

— O Chapeleiro Branco não é mais problema.

O Rei não fez questão de tirar os olhos da sua nuvem.

— Mesmo? Soube que seu agente fez um verdadeiro trabalho de mestre desta vez. A polícia da Cidade do Sul pensa que o velho morreu de enfarte durante o sono.

— A morte dele não era necessária. O Sr. Xavier entendeu isso como um acerto de contas, e foi atrás daquele pervertido por conta própria.

— Mal a senhora chegou e está falando de morte e sofrimento, Madame Mavi — O Rei suspirou, enfastiado — devíamos celebrar a beleza da vida e a vicissitude das nuvens. Não acha?

— Não — estatelou Madame, com rancor crescente na voz — não há porra para celebrar quando eu quase perdi um veículo muito importante e meus filhos para os seus mísseis e aviõezinhos.

O Rei baixou os olhos, com o cenho carregado. Madame M. continuou, implacável.

— O Ártemis é único, você bem sabe, sabe quem o projetou e o quanto vale. Não sei que idiota teve a ideia extraordinária de derrubar o meu zepelim com aqueles mísseis tenebrosos, mas por sorte, uma sorte filha da puta, se me permite, eles conseguiram fugir dos seus carniceiros. Fugiram sem leme, e só conseguiram pousar duas semanas depois na Islândia, quase mortos de fome e frio.

— Madame — tornou o Rei, sem olhá-la nos olhos — isso foi há seis meses, e as Forças Armadas foram devidamente repreendidas por conta deste episódio. Além do mais, todos estão fora de perigo…

Quarenta pessoas no Ártemis, Majestade! Treze feridos! Um morto! Racionando os víveres para não morrer de fome!

 

A voz de Madame cortou o ar como uma lâmina de fogo. O Rei encarou aquele semblante furioso a contragosto. A conversa tomou um rumo longe do esperado, mas quarenta anos ouvindo apenas lamúrias cínicas de políticos dissimulados dificilmente iria prepara-lo a lidar com a fúria virulenta de Madame. Não podia negar que o arroubo protetor da pequenina figura sentada à sua frente era no mínimo justa.

Por conta própria, numa cortesia repleta de culpa, o Rei pegou o bule e serviu chá nas xícaras. Indicou a leiteira e ofereceu, num gesto suave.

— Não, obrigado.

Madame aproveitou a pausa para respirar fundo, tentando recompor a serenidade. Bebericou o chá. Era delicioso. Earl grey com toques de bergamota argentina e um tantinho de cravo.

— Tente entender, Madame — tornou o monarca, um pouco mais seguro de si — eu não pude fazer nada. Seus amigos e o Exército estavam atrás da mesma… coisa. Aquele seu rapaz estava preso numa instalação militar de segurança extrema e mesmo assim ele fugiu de um jeito que beira o humilhante para militares acostumados ao ego da farda. Eles têm brio, e meu gabinete estava completamente no escuro quanto à operação dos oficiais.

Madame respondeu com um bufo.

— Além do que, a coisa voltou ao laboratório por vontade própria, segundo me consta.

— E agora esses oficiais insignificantes têm mais poder que o senhor, Majestade.

— Bobagem, Madame M. Esta monarquia é constitucional, e meu poder moderador é ridiculamente mínimo. Até o prefeito tem mais poder do que eu. Nosso sistema político está robusto, a máfia foi obliterada – com a sua inestimável ajuda, devo frisar. Está tudo bem!

— Sua Graça está correta — disse Madame, encantada com o sabor arrebatador da beberagem — e o chá está divino. Manter o Cafofo com esta calmaria é muito chato, no final das contas.

— Então a reforma naquele seu prediozinho estranho na Zona Industrial procede?

— O Rei tem olhos e ouvidos muito sagazes. Sim, estou reformando aquele lote para acomodar umas tralhas.

 

O Rei finalmente chegou onde queria, extasiado.

— E o prédio mais alto da Capital, é seu? Soube que está quase pronto.

— Será inaugurado terça-feira.

— Os laboratórios irão para lá, imagino. Lembro deles quando estive na Zona Industrial, a seu convite. Que tecnologia prodigiosa!

— Não, de modo algum os cientistas vão para a Torre. O corpo de pesquisa ficará bem mais confortável na universidade.

Sua Majestade engasgou-se com o chá.

— C-como? Que universidade?

Madame sorriu. Os espiões reais deixaram passar um elefante no buraco da agulha. Pousou a xícara no pires e cruzou os braços, satisfeita.

— A universidade presbiteriana. Soube? Eles entraram em concordata, arrematei tudo por um preço ridículo há coisa de dois anos. Foi um negócio arriscado que tomou boa parte das minhas economias, mas tinha que me ocupar com alguma coisa. E deu certo! A reestruturação foi eficaz, estamos lucrando horrores. Há dois meses transferimos os laboratórios do Cafofo para lá, os estudantes, professores, todos adoraram os equipamentos que vieram do Cafofo… e os pesquisadores do Cafofo estão contentes em trabalhar num lugar mais ensolarado que doze andares embaixo da terra.

 

O Rei, boquiaberto, não sabia o que dizer. Madame continuou, suave.

— Meus garotos estão entusiasmados com a ideia. O Sr. Xavier está quase terminando o seminário, mas já assumiu como capelão e coordenador dos cursos de extensão universitária. Coloquei-o como decano dos bolsistas e dos alunos de intercâmbio. É tão excitante!

Ela sorria animada.

— Sendo uma universidade presbiteriana, há grande afluxo de estudantes norte-americanos e holandeses, creio.

— Sim, Majestade, esses também. Naturalmente temos espaço para eles, é claro, contudo outros países nos interessam, sabe, aqueles mais para cima.

— Hã?

Madame ignorou a interjeição.

— …o Menino está ingressando na pós-graduação, o Filósofo adorou o núcleo de artes cênicas…

— Que diabo de país fica mais para cima?

Madame parou de falar, um tanto surpresa. Encarou o Rei como uma criança olharia para o lunático defecando na rua em plena luz do dia.

— Sua Graça… por acaso o senhor se lembra de Edric Pullman?

Sua Graça ficou muito irritada com o tom de ironia mal contido na pergunta.

— Ora, claro! Ele estudou comigo na Escola Politécnica, ajudei a angariar verbas para construir o primeiro de seus balões, o Intrépido! Foi meu melhor amigo, por Deus, mulher!

— E ele nos apresentou, se bem em lembro.

— Exatamente! Ele veio aqui mesmo, perto daquela bétula, contigo ao lado, vejo como se fosse hoje — ele apontou a mão para árvore — ele disse “veja, senhor Rei”, ele me chamava de senhor Rei só para me azucrinar, o biltre, “veja, senhor Rei, essa Madame tem um pequeno ‘sindicato’ bem diferente dos outros que estão destruindo o país, veja, ela tem os algumas ideias ótimas para acabar com esses mafiosos de merda”; ele disse isso, e depois que vocês acabaram com todos menos os Chapeleiros, ele construiu aquele lindo zepelim, o “Ícaro”, capaz de subir quase ao espaço, singrar junto às estrelas, e descobriu aquela passagem insólita para outro lugar. Sim, ele mesmo. Como haveria de esquecê-lo?

As lágrimas escorreram descontroladas ao longo do rosto real, enquanto Madame estendia um lenço em solidariedade. Era só o guardanapo da mesa, mas ele tomou o pano com delicadeza tal que poderíamos julgar ser da mais cara e pura seda chinesa.

— Ele morreu, Majestade — disse Moema, paciente.

— Sim, ele morreu, Madame, morreu sozinho, longe de casa como ninguém haveria de merecer.

Madame Mavi corrigiu, com delicadeza controlada.

— Não, Majestade, ele morreu com a esposa. Não morreu sozinho, o que tornou as coisas ainda piores para o seu descendente.

— Isso mesmo, ele e a esposa morreram do lado de lá. Edric descobriu a passagem para o lado de lá, lembra?

 

Madame esperou o Rei controlar o pranto; ele fungava baixinho, mas terminou por recuperar a compostura. A ficha estava caindo lentamente, mas Madame continuou:

— Edric passou dez anos indo de cá para lá. Nesse ínterim, ele projetou e construiu o Ártemis e passou anos estudando a ciência de . Edric fundou a primeira e única embaixada deste país que não responde ao Ministério das Relações Exteriores, mas sim apenas ao Rei. Lembra? A embaixada no País Gelado de Alênia, longe de um modo que não podemos mensurar, mas que de certa forma faz fronteira com nosso país. Lembra?

O rei estava aturdido.

— Deus todo-poderoso, tinha me esquecido completamente!

— Mas eu não. Dois anos antes da morte de Edric soubemos que algo além do Ártemis e do Ícaro atravessou a passagem, mas os militares puseram as suas mãos sujas primeiro. E eles praticamente fecharam a fronteira por dez anos ao instalar aquela base militar na Cordilheira dos Anjos. O Ícaro, não, nem mesmo o Ártemis poderia atravessar sem chamar atenção e Edric não voltou mais para cá.

“A fronteira permaneceria fechada se o Ártemis, sem motor e leme, voando à deriva graças aos seus adoráveis soldadinhos, depois de percorrer duzentas milhas náuticas e só vendo Oceano no horizonte, não descobrisse outra passagem, em águas internacionais, mas bem próximo do nosso domínio. Eles foram parar na Islândia, mas não na nossa Islândia.

“Descoberta a nova passagem, pudemos reatar os laços com Alênia, reorganizar a nossa embaixada e, finalmente, montar o programa de intercâmbio da minha universidade”.

— Você e seu Cafofo fizeram tudo isso ao largo da legalidade — disse o Rei, pesaroso — e manter embaixadas é função do governo, não do seu “sindicato”.

Madame deu de ombros. O chá esfriara, e nenhum deles tocou nas guloseimas postas na mesa.

— Como queira, Majestade. Fizemos tudo isso na surdina para não ter a intromissão de espiões indesejados ou dos seus adoráveis militares, os quais não só também agem ao largo da legalidade, como o senhor bem disse, como também possuem a notável capacidade de destruir e apodrecer tudo o que tocam. Além disso, sua Graça não percebeu, mas temos uma dívida para saldar: Edric teve um filho um ano antes de morrer.

 

Parecia ser emoção demais para o Rei. Os olhos esbugalhados de surpresa deformaram a pele negra e luzidia do rosto real, que parecia ter muito menos que os seus cinquenta anos.

— Um filho! Por Deus, as surpresas não acabam nunca!

— Benjamin Pullman, filho de Edric e sua esposa Rosalin. Foi criado em Alênia por uma tutora muito próxima da família, educado segundo as rígidas normas de conduta dos alenianos. Mas eles retornaram com o Ártemis: os dois já estão na antiga casa dos Pullman, aqui na Capital. Ben foi transferido à minha universidade, é um rapaz extraordinário, apesar das maneiras por demais distantes com os colegas. Não há muito que fazer, esse é o jeito aleniano de ser.

— Preciso conhecê-lo, Madame. Pela memória de Edric, ele tem de vir aqui um dia. E farei de tudo para que os militares não maculem essa passagem do Oceano.

Madame soltou uma risadinha involuntária.

— Sua Marinha não tem influência legal ali, sua Graça. E, mesmo se eles tentassem alguma besteira, a passagem nova está protegida tanto do lado de lá quanto do lado de cá.

— Protegida com o quê?

— Não sei os detalhes, ainda não o vi com os meus olhos; os alenianos chamam de Navio Multiproposta Científico. O NMC
Gilgamesh é uma belonave completa, assim como todos os veículos científicos do País Gelado de Alênia, próprios para encararem ambientes hostis. O Tigre ficou maravilhado, chamou de “porta-aviões voador”.

Porta-aviões! Voador! Com mil diabos, Madame Mavi, você não está pensando em deixar um porta-aviões de bandeira estrangeira, e desconhecida!, navegar livremente perto da nossa fronteira! Voador! Como pode isso? Misericórdia!

— Majestade, a nação não é desconhecida, lembre-se que temos uma embaixada em Alênia, embora ela atualmente esteja sem representação diplomática oficial. Não obstante, o Gilgamesh foi o último projeto de Edric Pullman, apesar de sua construção ser muito recente.

Outra lapada na pobre majestade. Ele colocou a mão no peito, com um esgar de dor.

— O… o último projeto… mesmo assim… impossível. Inaceitável deixar um navio desses navegar tão perto sem as saudações nos canais adequados…

Madame suspirou, exausta. Entregou muito mais do que o calculado. Agora era tarde.

— Não só pretendo como asseguro livre trânsito do Gilgamesh em nosso território, sua Graça: ele é parte essencial do programa de intercâmbio científico da minha universidade. Como tal, ocasionalmente ele precisará atracar aqui na Capital.

O Rei deixou escapar uma risada sardônica.

— No porto é que não vai ser!

Madame sorriu, enquanto se levantava para ir embora.

— E no porto não será, Majestade. Eu já esperava uma reação assim. Por isso estou construindo as docas nos extensos subsolos daquele “prediozinho estranho” do Cafofo, na Zona Industrial.

Diários do Tigre Manco de Bengala – Na Barbearia

27 jan

Eis que era chegada a hora de cortar a juba: normalmente quando o gel megahiper fixador já não dá conta de acalmar os ânimos destrutivos dos quatro principais grupos étnicos do meu DNA – a saber: alemão, índio charrua, alguma nação africana e Portugalll – que insistem em assentar território cada qual nalgum pedaço do couro cabeludo e brigar entre si até que a gloriosa porção africana ponha todas as outras no seu devido lugar e grite TEMOS VITÓRIA e a blaxploitation dominar geral, geral, restando somente a Era de Aquário embalada a Hendrix e Jackson Five (eu ia dizer The Fevers também, mas achincalhe tem limite), bem, aí é hora de aparar as arestas.

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Não que eu tenha baixa auto-estima com os meus cachos à Valderrama, mas o ambiente cheio de véio sisudo onde trabalho não é muito suscetível a homem com cabelo na altura do ombro – que dirá, então, daquele que mal passa da porta. Conquanto ia sso, filho de policial com cabelo comprido só pode ser vagabundo.

Filho de brigadiano só corta cabelo no quartel ou na barbearia de ex-brigadiano e desde a infância tem sido assim. Axiomas cruéis que covardemente imbuíram neste Sátrapa o abominável preconceito de que gastar dinheiro em coiffeur decente é como fazer o Santo Sudário de papel higiênico. Logo, qualquer coisa que envolva e tesoura e navalha por mais de 15 reais é loucura. Além disso, jamais tive muito cuidado com o que barbeiro fazia da minha cabeça; um “passa a 2 que tá bom” era o primor de conversa útil. Polêmica era se as suíças deviam ser retas ou quadradas, e o máximo de cuidado a se ter era ver se o cara não ia fazer caminho-de-rato pra acabar logo e ver a mulher mais cedo. Simples como a vida.

Mas hoje, meus caros, a coisa foi diferente. Hoje o que era para ser um simples corte adquiriu caráter épico, digno de virar minissérie da HBO.

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Taquei o mesmo balde de gel que costumo usar pela manhã (lembrem-se, as quatro etnias lutavam encarniçadamente pelo controle das pontas duplas) e só no meio da tarde me veio a ideia de passar num barbeiro perto de casa e arrefecer os ânimos capillares. E, dado o meu histórico de pé-sujos, este é um lugar diferente e bacana, conduzido por um cara que nem de longe se passaria por ex-policial e em cujo aprazível ambiente fazem-se pés, mãos, cabelo e fofoca, a miríade comum, e até mesmo tatuagens (shame on you, Samuel!).

Veio um rapazote que eu não dou mais de dezessete anos e no qual de cara já intuí que os arroubos adolescentes criariam Vias Dutra na minha cabeça. Mas eu estou numa vibe bem kamikaze esta semana, ciente de que precisaria de uma marcante aparência para este fim de semana, esqueci o ar inexperiente do garoto e fiz, em 24 anos e meio de vida, o pedido de corte de cabelo mais complexo de toda a minha ordinááária existência. Tirei os aparelhos dos ouvidos e disparei:

– Passa a 4 nos lados e atrás, mas faça com que a altura suba gradualmente. Não baixe a altura da parte de cima, faça quando muito uma nivelada, mas sem reduzir nada.

Um segundo depois o dono do estabelecimento percebeu – e eu também – que o magrão que sempre pede “passa a três que tá bom” resolveu fazer uma lista draconiana de exigências e o rapazola talvez não estivesse à altura do desafio. Mas eu já estava encarapitado na cadeira, e dali meu orgulho não deixaria sair.

O garoto titubeou por uns minutos, demorou bastante até encontrar a lâmina 4 da máquina, certo de que talvez eu fosse desistir – mas não. Não. Continuei sentado com o olhar impassível par ao meu reflexo no espelho, pensando em dragões e copinhos cheios de tequila, sem a menor vontade de levantar minha bunda dali.

Deu pena de ver o garoto lutando contra os cachos emplastados de gel. Passou pela minha cabeça – e na dele, claro – trocar aquela maquininha horrível por uma motosserra Stihl de 3HP e derrubar aquele macarrão étnico, uma vez que, à sombra do perigo, os quatro grupos uniram-se pela sobrevivência. Foi um páreo duro agravado pela quantidade absurda de gel no cabelo e pela óbvia inexperiência do rapaz.

Mas depois de ele sujar as mãos, as tesouras e máquinas do gel mais lazarento da Terra, ele conseguiu. Levou longos e agoniantes minutos, quase hora, mas conseguiu fazer exatamente do jeito que pedi. E aí a primavera triunfante da juventude iluminou o rosto do rapaz e ele propôs, matreiro:

– Quer fazer escova?

Devo dizer, em minha depauperada defesa, que obviamente estava sem os aparelhos auditivos. Como ocorre a alguém que há mais de cinco anos usa o que resta de leitura labial para entender só “bom dia” e “boa noite”, prefiro não fazer confusão e anuir com qualquer coisa que o barbeiro proponha (normalmente algo relacionado às suíças, etc.) – e normalmente barbeiro gordo e velho não prima pela criatividade.

Mas não desta vez.

Desta vez eu estava com o possível Ganso das tesouras, o Robinho das tosquiadeiras, que propôs – e eu aceitei, como de praxe, sem entender nada – e fez de bom grado suíças triangulares. E desta vez ele queria a escova, e desta vez eu não tive como me furtar de entender, porque ele segurava um histriônico secador de cabelo profissional nas mãos.

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Sr. Spock e suas suíças equiláteras combinando com as orelhas.

Mas eu estou numa vibe kamikaze e disse “bora. Vamos ver como é que fica”. Ficou bom. Notam-se aqui e ali algumas imperfeições, mas o cara também saiu esgotado depois de duas horas de luta ferrenha.

E eu saí com um pouco mais de respeito pela profissão. E com um cabelo legal. Ou algo assim.

Contos do Cafofo [X] – A Descoberta de Ártemis

23 jan

Os passos pesados e decididos do Visconde do Paranoá, Coronel J. E. Leitão, ressoaram na galeria principal do Batalhão de Comunicações da Cidade do Norte, e qualquer infeliz que cruzasse a sua frente inferiria sem erro que ele estava furioso. Ele quase esqueceu de bater continência às sentinelas, embora o fizesse mais por hábito: o título nobiliárquico o libertava dessa cordialidade atávica, mas este era recente demais e, em contrapartida, a liturgia real era exponencialmente mais insuportável que as regras da caserna.

Mas isso é apenas tergiversação nossa, pois o próprio visconde tinha muito mais com o que se preocupar: em primeiro lugar, o comando da captura do Dragão caiu nas mãos do Marechal L., a quem ele não faz questão de nutrir a menor simpatia, isso tudo no curto período de folga do Visconde. Dada a eficiência da diatribe, sem dúvida o velhaco tinha infiltrado alguns agentes seus na equipe meses antes, e obteve algumas informações “oficiais”da operação. Até onde iria a rede de espionagem do marechal? O quanto ele sabia das reais intenções do visconde na operação? Pela fama do marechal, é possível que ele já soubesse de todos os seus movimentos e, portanto, até onde o Dragão de fato se escondia.

Neste ponto ele poderia ficar calmo: segundo o último informe de seu esquadrão de confiança, o Dragão embrenhara-se por conta própria no ponto mais inacessível da Cordilheira dos Anjos – “e Deus queira que de lá ele não saia tão cedo”.

Como de praxe, o quartel tinha o pungente odor de coturno, farda e lubrificante de armas, como se usassem mesmo essência dessas coisas na limpeza dos prédios. De súbito, o coronel parou em frente a uma porta aparentemente iguais às outras, girou a maçaneta e entrou.

Seis oficiais e três sargentos aguardavam o coronel em conversa febril, e assim que ele entrou, levantaram-se e prestaram continência. À resposta, eles mantiveram-se em prontidão.

O coronel murmurou um cansado “à vontade” e se sentou na cadeira mais próxima, esfregando os olhos.

– Muito bem, senhores, o que vocês conseguiram salvar daquele abutre?

– Pouca coisa, coronel – disse o Ten. Bach, mais próximo daquele.

Um dos sargentos puxou o aparelho de slides, enquanto o coronel se acomodava numa cadeira tipo escolar. Guinle apagou a luz, e outro oficial tomou a palavra. A luz branca do projetor mostrou a figura de um trem militar.

– O Marechal L., ao que parece, não subestimou a linha de frente da organização que conhecemos pelo nome de “Cafofo”. Ainda não temos suspeitos, mas resta evidente que o marechal teve acesso aos nossos arquivos, aos relatos dos espiões a respeito do rapaz de nome “Samuel” e o conominado “Xurume”. É possível que o marechal e seus subordinados saibam do seu relacionamento com as Irmãs Meianoite, coronel. Se os espiões fizeram bem o seu trabalho, é possível que eles saibam da finalidade adversativa de suas buscas, coronel, e caso ele se dirija à corte marcial, estaremos em apuros.

– Ora, muito bom, tenente Wagner – disse o coronel – vamos ser cuidadosos de agora em diante. E o pilantra que eles capturaram no Expresso, temos alguma informação?

– Nada muito claro, senhor – replicou Wagner – sabemos que ele e alguns capangas (scagnozzi no original)estão em custódia neste trem, que está a toda em direção ao Forte da Fronteira Norte.

– O que podemos fazer para ajudá-lo?

Os oficiais se entreolharam, atônitos. Sequer passou pela cabeça deles ajudar os mafiosos; a ideia até então era de que eles eram inimigos mais temíveis que os caçadores – ou mesmo o próprio Exército.

O Sargento Vilallobos tomou a palavra, hesitante:

– Senhor… ele não era um inimigo?

O Coronel Leitão levantou-se, abrindo a porta.

– Era – disse ele, antes de sair – mas do jeito que a situação está feia para nós, teremos de mudar nosso ponto de vista.

***

O gracioso Lockheed Constellation descansava placidamente no aeroporto da Ilha da Madeira, em escala técnica antes de seguir ao seu destino. A autonomia relativamente baixa obrigava a aeronave parar vezes sem conta para reabastecer os tanques de combustível e o cattering, de champagne. Apesar das incessantes decolagens e pousos e do barulho poderoso dos quatro motores a pistão, Madame preferiu isso à demora dos zepelins ou dos navios. Sentia que seu retorno ao Cafofo era de premência absoluta, e, além do mais, conseguira, na insólita residência japonesa em plena Islândia, em tempo recorde os conselhos necessários.

O piloto comunicou aos passageiros que era possível esticar as pernas no aeroporto, se assim eles desejassem. Madame aproveitou a deixa para pedir um telefone.

As notícias do Cafofo acabaram com os seus nervos, mas ela não esmoreceu. Discou um número decorado há muito:

– Alô – disse uma voz jovem e calorosa.

– Chris – disse a Madame – eu preciso da sua ajuda, e não tente recusar. Entre em contato com o Filósofo. E o Xurume, se possível.

– QUEM?! MO, o Filósofo NÃO!

– Sim, o Filósofo sim – Moema exclamou taxativa, a ponto de atrair a atenção dos transeuntes do aeroporto – não me venha com birra logo agora, estou na Ilha da Madeira, mas vou saber NA HORA se você não fizer o que eu mando.

Um longo e aterrorizado silêncio tomou conta da ligação. Finalmente, Chris disse:

– É algo sobre um tal de dragão não é?

Moema sorriu.

– Sim, meu querido, mas você não irá topar com dragão nenhum, te dou minha palavra.

– Ufa – ele respondeu – então, o que preciso fazer?

Madame viu a aeromoça chamar os passageiros, mandou ele pegar as informações no Cafofo. A divisão de ciências e inteligência transmitiriam a missão.

Ela descansou o fone no gancho, puxou teatralmente a estola e voltou ao magnífico Connie que parecia ansioso em reencontrar seu habitat: o ar.

***

O Coronel Leitão sentou em sua escrivaninha, no quartel da Cidade do Norte. Gostaria de dizer um pouco mais aos homens de sua confiança, mas isso era arriscar-se demais – e ninguém, ninguém mesmo, tinha plena ciência do seu parentesco com o Dragão. Se alguém fosse mais a fundo nesta história, sua carreira, seu título nobiliárquico e até mesmo sua estável relação com as Irmãs Meianoite estariam ameaçados.

E o Marechal L. era implacável demais para ser subestimado.

***

Elena di Carrara parecia não se importar com o frio enregelante da estação de serviço encarapitada no coração da Cordilheira dos Anjos, inacessível se não fosse por uam perigosa estradinha que serpentava aquela parte das montanhas. Os raios da manhã pouco fizeram além do que iluminar a rochosa e desolada paisagem com a luz meio lúgubre que conseguia atravessar as pesadas nuvens de inverno, e mesmo assim, boa parte desta era bloqueado pelo atordoante penhasco rochoso que estendia-se milhares de quilômetros céu acima – uma formação rochosa circular que lembrava o cone de um mastodôntico vulcão há muito adormecido, chamado justamente de “Trono de Deus” –, mas esse era o ambiente em que ela se sentia bem. Enquanto seus “empregados” congelavam dentro de grossíssimos casacos de feltro, ela passeava de lado a lado da plataforma envergando apenas um sobretudo de couro. Não que ela não sentisse frio, mas era orgulhosa demais para reclamar.

Além disso, naquele momento seu principal temor era o trem que deveria ter chegado há mais de duas horas. O radiocomunicador da estação apontara uma parada rápida devido a acúmulo de neve na ferrovia a pelo menos 150km dali, mas a pausa, pelo que eles viram no controle, demorou cerca de apenas vinte minutos. Para piorar as coisas, ninguém na faixa de frequência conseguiu explicar quem removeu a neve dos trilhos, já que dali não saiu nenhuma equipe.

Tudo isso, noves fora a estação de serviço estar sem o menor sinal de uso – eles planejaram render pelo menos dez pessoas – deixou Elena e os seus capangas com os nervos à flor da pele.

O tonitroante buzinaço do trem surgiu ao longe, e, às onze horas da manhã, o Expresso Setentrional passou a toda velocidade pela estação. A Elena restou proteger-se do deslocamento de ar correndo para dentro da estação, pois o trem sequer fizera menção de diminuir a velocidade. Em menos de trinta segundos, a composição passou pela perplexa garota, que viu da janela o trem sumir neblina adentro.

Havia algo errado ali. O cugino daria um jeito de descer na estação se estivesse no trem, a não ser que tivesse feito isso antes.

A garota correu para a cabine do rádio, onde um dos asseclas acompanhava compenetrado alguma estação. À entrada dela, o rapaz passou-lhe o fone:

Ciao, ragazza, ascolta: si tratta di una transmissione delle force armate.

Segreti?

Eco.

Elena escutou por um momento o falatório dos soldados. O scagnozzo alcançou-lhe papel e lápis, e ela anotou alguns dados de localização geográfica, números e nomes esparsos.

Ao fim da transmissão ela lhe devolveu o fone, e correu a chamar os scagnozzi. Reunidos na plataforma, ela passou as ordens.

Stato rapito mio cugino. Tre scagnozzi ficam qua e me liguem se aparecer algo novo. Il resto vieni com me a Cidade do Nord. Adesso, va, adesso!

Ainda antes de entrar no carro, Elena se lembrou de uma última coisa. Pegou o telefone e discou.

Buongiorno, una mezzanote sorella, vi prego.

À interjeição desnorteada do outro lado da linha, Elena respirou fundo e caprichou no idioma.

– Olá, uma das Irmãs Meianoite, por favor. E não perde tempo, porco cane.

***

O Trem Blindado T49U-XB encontrou o ramal exclusivo dois quilômetros além do ponto de interceptação, que levava direto às estações fronteiriças e, por conseguinte, ao Forte da Fronteira. 300km a sudeste, erguia-se a Cidade do Norte, para a qual o caminho mais rápido era pela perigosa estrada da cordilheira (que passava perto da estação de serviço onde Elena estivera de campana).

O trem chegou ao seu destino, e Samuel, preso numa cela individual e obviamente isolado dos scagnozzi, permanecia meditativo no colchonete. Aceitou passivamente a comida horrível que lhe ofereceram – o soldado informou que já eram duas horas da tarde, apesar do sol fraquíssimo – e comeu lentamente, tentando saborear o parecia mingau de serragem. Por fim, deixou o prato no canto e tentou divisar algo pela janelinha gradeada de sua cela.

Lamentou-se nunca ter estado naquela região antes e não encontrou nada de interessante naquela estação a entrada do forte era logo adiante, mas algum entrave – burocrático, será? – impedia a entrada do trem a o desembarque dos ocupantes. Um militar graduado andava de um lado para outro na plataforma, e a silhueta dele não lhe era estranha: parecia que já tinha visto aquele oficial em algum lugar, mas a idade um tanto avançada não condizia com ninguém de seu conhecimento. Soldados armados observavam cuidadosamente o trem, e mais de um olhou com hostilidade para o rosto do rapaz que espiava na janelinha.

Ele voltou ao colchonete, e esforçou-se em lembrar dos dias calmos que tivera antes de sair como um asno atrás de dragões e homens de rosto escamoso.

Lembrou-se do sedã negro que o presenteara com uma miríade de sensações novas e há muito soterradas em anos e anos de autocontrole e preocupações mais urgentes, e como isso tinha dado esse entusiasmo novo e meio irracional que o impeliu de volta ao Cafofo, àquela vida atribulada e perigosa.

Ele se lembrou disso e muito mais, e chamou baixinho quem ele gostaria que estivesse ali. Chamou a Pietr Bezhúkov, herói insólito de Guerra e Paz; gostaria que os xarás Sr. Samuel Pickwick e o seu fiel escudeiro Samivel batessem à sua porta, acompanhados de Sancho Pança e Dom Quixote – e Dom Diego de La veja também poderia ser uma excelente companhia. Mata Hari? Puxa, ela seria uma atração e tanto naquele espaço exíguo!

Mas o delírio não durou muito.

“Minha esperança morreu aqui. Nada me resta”.

***

O Menino, codinome de Christiano, já não era mais digno apelido. De garoto franzino tinha se tornado num rapaz espadaúdo, apesar de ainda muito esguio, e bem alto. Deixara o indesejável mas útil hábito de usar um sobretudo que escondia-lhe o rosto e trajava roupas mais condizentes à sua idade: jaqueta de couro, cachecol e calças largas de brim cáqui. Ele não estava sozinho no saguão do Cafofo: ao seu lado, muito mais próximo do que ele considerava confortável, o Filósofo parecia sorridente, olhando para todos os cantos.

Era uma figura muito peculiar: mais magro que o Menino, pelo menos vinte centímetros mais alto, bem mais novo que o outro mas aparentava ter quase trinta anos, o Filósofo envergava com muito garbo – excessivo, diria-se – o terno de corte italiano. Na sua mão esquerda, um sobretudo de couro negro, cachecol e um estranho óculos semelhante ao dos motociclistas, mas não exatamente igual. Os dois estavam com algumas malas e equipamentos nos pés, e aguardavam os carregadores para enfiar a bagagem no transporte.

– É tão fodástico este prédio, Crys – exclamou o Filósofo, no modo suave que lhe era muito habitual (e fonte do terror do Menino) – não acredito que só estive aqui uma ou duas vezes. Você também não vinha muito ultimamente, não é, querido?

Crys, ou melhor, Chris teve um violento acesso de tosse – alérgica, disse ele, nada com que se preocupar – mas não objetou em responder:

– É verdade, mas todos temos nossos motivos. Engraçado encontrar isto aqui em tão bom estado…

– Não é mesmo?! – o Filósofo estava em euforia – eu adoro esse Art Déco todo trabalhado em motivo industrial; condizente, uma vez que estamos justamente na Zona Industrial. As engrenagens, o ferro aparente… a Madame realmente é uma mulher de classe.

– Sim, sim – disse o rapaz, aliviado em ver a chegada dos carregadores – mas não vamos nos demorar. São… sete horas e a noite já caiu, precisamos partir imediatamente.

– De fato. Bem, meus amores – dirigiu-se aos carregadores – coloquem esses equipamentos com muito cuidado no elevador, sim? Não queremos nada quebrado antes de salvar o Lancelot em perigo…

Chris fez uma careta constrangida, mas deu de ombros. Mas, como de hábito, ele não entendeu nada de imediato.

– Como assim, elevador? Pensei que o seu “transporte” estivesse lá fora, na rua.

– Está, está, meu querido – respondeu o Filósofo, dando-lhe uma piscadela (o que provocou outro acesso de tosse alérgica no Menino). Mas não exatamente na rua. Bem, não no asfalto, quero dizer. Vamos subindo – os dois entraram no elevador, que descia vazio – seria chamar a atenção demais para o nosso lado. Mais do que nós dois, que somos bonitos e atraentes, chamamos per se. Agora, pegamos a escada do terraço… não, não se preocupe, eu vim por esse caminho, está tudo ok. E abrimos a porta e…

O Menino saiu primeiro para o terraço, mas o que ele viu deixou-o de queixo caído.

Um gigantesco zepelim, de pelo menos 80m de comprimento, zanzava onipotente sobre o prédio do Cafofo, ancorado pela torre própria para isso. Um punhado de aeronautas acompanhava o embarque dos equipamentos e outros conferiam as cargas de víveres e mantimentos que amontoavam-se no terraço. Todos trabalhavam a toque de caixa, a fim de partir o quanto antes.

– Isso… isso é um zepelim transatlântico!

O Filósofo sorriu, deliciado.

Quase. Ártemis é capaz de voar por longas distâncias, sim, mas este não é o principal atributo dela.

– Não?

– Não. Ártemis é capaz de elevar-se a altura muito superior à dos zepelins usuais e mesmo dos últimos aviões de fuselagem pressurizada, o que termina sendo uma excelente vantagem. Ela alcança maior velocidade de cruzeiro – e a vista é magnífica!

O Menino mal conseguia balbuciar as palavras.

– Mas como… como… é possível?

– Pergunte à Madame quando ela voltar. O projeto saiu aqui do Cafofo.

Enquanto o carregamento seguia em ritmo febril, os dois aproveitaram para revisar o plano de ação:

a divisão de inteligência cuidou de colocar no ar alguns balões meteorológicos equipados com potentes câmeras e transmissores que acompanharam toda a viagem, inclusive a captura do Tigre da Madame. O balão continuou a vigilância seguindo o trem militar, e agora sobrevoava a base. Outro balão foi descolado para lá – eram pequenos dirigíveis, na verdade – e com isso pôde-se ter certeza de que os prisioneiros ainda não desembarcaram. O setor de contraespionagem da divisão de inteligência encarregou-se de protelar ao máximo o desembarque colocando toda a sorte de entraves burocráticos na região – foi uma operação cara e um tanto perigosa, mas foi bem sucedida. Os prisioneiros somente seriam aceitos no Forte a partir das sete horas da manhã. Estimando a partida Às oito da noite, a viagem em (surpreendentes, para o Menino) quatro horas, eles teriam tempo de sobra para organizar uma invasão silenciosa e libertar pelo menos o Tigre. Os dois capangas invariavelmente seriam soltos, pois não há absolutamente nada contra eles e estão detidos, segundo os espiões, como “testemunhas” contra o criminoso.

– Sendo assim, Crys – concluiu o Filósofo – os milicos estão com um menino valioso, duas buchas que não prestam para nada mas que podem ser de alguma valia se os subornarem direitinho a ponto de testemunhar numa corte marcial. E vão acusá-lo de qualquer coisa – os tribunais militares não são conhecidos pela tolerância do contraditório jurídico.

– É uma pena que ninguém reativou a divisão ostensiva – disse o Menino – não acho que você seja um Capitão Nemo cheio de piratas sanguinários sob seu comando.

– E não sou mesmo. Nós dois teremos de fazer o serviço sujo hoje… bem, algo mais?

– Nada.

– Então… zarpar!

Os aeronautas correram a desamarrar as cordas do píer aéreo e o Filósofo, na envidraçada ponte, ditou as coordenadas ao piloto. Os navegadores calcularam a rota mais curta enquanto um imediato enviou a mensagem de “velocidade total” pelos comunicadores internos. Ao Menino, entretanto, tudo pareceu uma algaravia de homens andando de um lado a outro, gritando em telefones e amarfanhando seus delicados uniformes azuis. O suave zunzum das hélices ficou pouca coisa mais forte, apesar de o zepelim ter feito um brusco movimento de subida.

Da ponte, Chris enxergou a Capital transformar-se num borrão luminoso em curtíssimo tempo, e logo as nuvens taparam a visão. O breu cinzento não era impedimento: os altímetros, barômetros e radares auxiliavam a vida do piloto. O Filósofo sentou na cadeira do capitão, seu lugar por direito, e Chris acomodou-se numa poltrona destinada aos visitantes.

Duas leves guinadas para a esquerda posicionaram o zepelim na direção norte, mas a subida não tinha fim; as nuvens começaram a parecer leves floquinhos num chão absurdamente distante, e em mais cinco minutos e o céu ficou mais escuro ainda.

Mas o espetáculo era lá embaixo; a terra emitia um brilho esquisito, azul e bruxuleante. O zepelim encerrou a subida e passou a força para a frente.

– Te apresento, Crys – anunciou o Filósofo, estendendo a mão – a estratosfera. Não precisávamos subir tanto, é verdade, mas essa visão é estimulante demais para deixar de ser vista.

O Menino não tinha como discordar.

***

Eram duas horas da manhã, segundo o relógio do Tigre da Madame. Ao contrário do que ele pensou, os soldados pareciam não ter pressa em interrogá-lo. Ele não foi obrigado a vestir roupas humilhantes, se despojar dos objetos pessoais. Sua querida parabellum ficou escondida num canto do teto do Expresso Setentrional, e só um milagre faria tê-a de volta. Uma pena, sem dúvida.

Ele não conseguia dormir. Podia sentir a tensão tomando corpo nos tripulantes do trem, e isso não era um bom sinal: aparentemente ele ficaria ali até amanhã, apesar de o mais sensato seria enfuná-lo dentro do Forte. Por outro lado, era tão claro quanto o dia que, uma vez dentro do Forte, nem Deus o tiraria de lá inteiro. Portanto, enquanto todos os sentinelas e carcereiros ficavam mais e mais hostis com o rapaz, ele se sentia mais insanamente feliz, e se permitia até ter um pouquinho de esperança.

Samuel voltou a meditar em silêncio, mas um baque surdo e seco no teto do trem despertou seus sentidos. Ele espiou pela janelinha, mas as sentinelas não foram alertadas. O carcereiro do lado de fora ressonava alto. Nada. Dois ruídos abafados de passos. Samuel grudou a orelha na janelinha.

– Anda! Pega o maçarico!

Samuel não acreditou naquela voz baixinha e aterrorizada. Só podia ser um truque do seu aparelho auditivo.

– Ora, meu querido, não tenha pressa. Segure bem esse pano para que as faíscas não nos denuncie. Isso vai dar algum trabalho, é um trem blindado

O Tigre sorriu, aliviado. Se não era o Filósofo e o Menino!

O corte da chapa levou meia hora, meia hora de zumbido abafado por um engenhoso cobertor acústico e antifogo desenvolvido no Cafofo. A chapa era pesada, e o Tigre não conseguiu segurá-la: ela caiu com estrondo no chão. Em questão de segundos, no entanto, enquanto as sentinelas levantavam-se do torpor da noite e o carcereiro tentava encontrar a chave certa, Os dois puxaram o prisioneiro, entraram numa pequena gaiola e foram recolhidos a toda velocidade céu acima, onde o zepelim pairava indolente, sem tomar conhecimento na confusão lá embaixo.

Quando o Forte e os ocupantes do trem notaram o gigantesco dirigível, já era tarde. Os holofotes não conseguiram ir muito além da barreira nebulosa, enquanto o Ártemis vencia os metros com facilidade.

Os aeronautas receberam o time com champagne e vivas pelo sucesso da operação. Enquanto caminhavam até a ponte, eles punham o assunto em dia, apesar de ninguém falar diretamente sobre dragões, em respeito ao coração fraco do Menino. Convencionou-se que o melhor a fazer era achar um lugar para ficar escondido, pois havia a possibilidade real de perseguição com os caças monomotores da aeronáutica, ou mesmo outras belonaves, como o zepelim-bombardeiro ou os mísseis terra-ar.

Se fossem usados os mísseis, o Ártemis seria alvo fácil mesmo na estratosfera. O Filósofo, no entanto, pensou rápido e indicou as coordenadas ao piloto, que assentiu em aprovação.

– Vejam, meus amigos – disse o Filósofo, sentado na sua cadeira, quando o zepelim passou dos sete mil metros – o Trono de Deus ali ao lado. E com o topo totalmente descoberto. Vamos passar por ele, e vocês verão algo inesquecível.

O piloto, os navegadores e aeronautas da ponte cravaram os olhos nos vidros, enquanto o imediato desligava os holofotes e as luzes internas. Os motores de impulsão foram postos em velocidade mínima, e alguns aeronautas colocavam balizas do lado de fora do dirigível. A neblina eterna que protege o Trono de Deus era, até se sabia, um local inexpugnável para qualquer aeronave, por mais avançada que fosse. O Tigre e o Menino, contudo, observavam a tripulação agir com experiência naquelas condições. As ordens do Filósofo eram firmes e precisas, e o piloto manobrava o monstro de gás com habilidade.

Súbito, a névoa dissipou e um forte brilho alaranjado vindo da superfície atrai a atenção de todos.

A tripulação inteira deixa cair seus queixos ante a visão mais incrédula das suas ordinárias vidas.

No meio do Trono de Deus, protegido pelas montanhas nevoentas, havia um vale – um vale que poderia ser chamado de Éden com muita propriedade – tinha luz, laranja, viva, quente, vinda sabe-se lá de onde – e uma densa floresta e dois lagos. Tudo isso a seis mil metros de altitude.

E, no meio desse paraíso, à vista de todos do Ártemis, um Dragão voava despreocupado.

Contos do Cafofo [IX] – Xeque-Mate

10 dez

Enquanto Samuel e seus guarda-costas toscanos apreciavam a longa viagem de trem, o assunto do misterioso dragão esfriava na Cidade do Norte. Mais interessante e menos fantasioso que a inacreditável visão de um réptil gigante singrando pelos céus, a imprensa registrara com ardor e sensacionalismo a inesperada invasão de um braço da Máfia italiana nos domínios de “para lá da Josino”, um enclave do crime cujo domínio era o extenso e compacto grupo de casebres que subia a montanha logo além da rua. Alguns repórteres menos temerosos apontaram o sumiço do cabeça da bandidagem local, um homem de idade avançada mas de pleno uso das faculdades mentais nomeado “Chapeleiro Branco”. Alguns moradores e fontes da polícia ligavam o tal Chapeleiro à temida agremiação sanguinária de mesmo nome, reduzida a poeira após um encarniçado (e obscuro) conflito com outra facção alguns anos atrás. Jornalistas menos comprometidos com os balancetes financeiros de seus patrões e mais afeitos à adrenalina investigativa tiveram a presença de espírito de encontrar moradores que testemunharam diversos eventos naqueles dias, os quais permitiram moldar uma ideia geral do que realmente acontecera, inclusive com retratos falados (de procedência dúbia) dos protagonistas.
Ao que tudo indica, na mesma época das aparições do Dragão, o velho chefe do crime encasquetou-se com um rapaz magro, de estatura mediana e muito bem vestido que andava sem destino certo e enchia os transeuntes de perguntas sobre coisas estranhas (viu por aí um homem com rosto cheio de cicatrizes?, e coisas assim). Em pouco tempo, o tal chapeleiro soube que esse rapaz era nada menos que espião da máfia italiana agindo à socapa e um possível participante do massacre da antiga gangue do chefe. Ao colocar o rapaz em cárcere a fim de obter informações, o velho e seus cupinchas foram surpreendidos pelo parceiro daquele – um sujeito de meia-idade baixo e gordinho, que usava óculos de aros grossíssimos na cor púrpura e insólito chapéu-coco (o chapéu-coco, símbolo da Máfia dos Chapeleiros, suscitou dúvidas entre os repórteres no programa de rádio vespertino: seria ele um ex-chapeleiro?) correu em direção ao casebre usado como cela e não só libertou o seu colega como chamou ajuda de outros capangas, os quais aguardavam espelhados pela cidade. O Chapeleiro Branco ou foi morto na escaramuça ou severamente ferido, pois muitos moradores o viram ser acudido pelos seus empregados, pálido e com as vestes claras encharcadas de sangue.
Esse era o assunto do mês na Cidade do Norte, mas uns poucos cidadãos reunidos no Buenos Aires faziam cara torta e subiam os olhos ao teto, sem poder dizer o que realmente acontecera.
Três deles, em especial, aproveitavam o grande movimento do cabaré para discutir algumas ideias sobre o fato – e sobre a terceira aparição do Dragão em público, a qual ocorrera justo ali e mantida incógnita por um gesto ágil e sortudo do Visconde do Paranoá.
– Aquele dia. Foi por pouco, não?
– Sim – disse o visconde, ajeitando o paletó do tipo jacket – por muito pouco o trombadinha da capital não encontrou o que procurava.
Angélica soltou uma cavernosa gargalhada de prazer, enquanto Bárbara limitou-se a rir nervosamente. O visconde acompanhou o riso, simpático.
O galanteio inerente ao coronel ajudou a desanuviar o ambiente. O salão do Buenos Aires estava cheio como de hábito, e Marquinhos dividia-se em quatro para comandar as garçonetes e garçons, os quais desviavam-se do bochincho com agilidade e elegância.
– E o que aconteceu depois? – instou Angélica, mordaz como de hábito – não vimos você saindo com ele.
Os ombros do gentil-homem retesaram-se, assim como o rosto perdeu qualquer traço de expressão amigável.
Os três inclinaram a cabeça a fim de evitar os constantes olhares indiscretos dos outros clientes.
– Aí é que está o problema. Não sei se é por birra ou por temperamento da raça, mas eu tive de tirar ele daqui com muito esforço. E, saindo do bar, o tal dragão enfureceu-se. Como se não tivesse o bastante com que se preocupar. Aí eu o joguei no carro, fechei a porta e pus o dedo naquela cara cheia de erisipelas…
– Escamas – corrigiu Bárbara.
– Que seja, o inferno. Eu disse “olhe aqui, você está com as forças armadas, um bando de mafiosos malucos que querem por as mãos em você (aliás, tinha um deles lá dentro que por muito pouco não nos viu) e em vez de você ficar bem quietinho na sua montanha, o que você faz? Vem aqui neste bordel cheio de gente, à vista de todos, conversando na maior das caras-de-pau!”
– E ele – tornou Bárbara – o que disse?
– Disse que tinha sido convidado por vocês e que ninguém diria onde ele deveria ou deixaria de ficar, agora que estava livre.
– O que é verdade – completou Bárbara.
O coronel suspirou, tenso e furioso.
– Que seja! Poderia ter vindo a qualquer hora, mas não quando sabia que aquele pivete da tal de Madame estaria aqui justamente para encontrá-lo!
O visconde terminou a veemente frase com um soco na mesa, que ecoou sem muito alarde pelo burburinho do salão. As Irmãs Meianoite continuaram impassíveis, mas podia-se ver o sangue de Angélica subir.
– Diante disso – continuou ele, retomando a voz galante – eu disse para ele arranjar abrigo sozinho. Ele está por si dali em diante.
Angélica Meianoite levantou-se, encolerizada.
– E você vai deixar por isso mesmo, seu idiota?! Vai deixar aquela criatura sem ajuda enquanto todo esse mundo cheio de gente ruim está atrás dele?
– É claro que não, meu amor – tornou o coronel – mas encerrei todo tipo de contato. Farei apenas o possível para que o Exército não o encontre (e aquela organização, o tal “Cafofo”).O resto está por conta dele.
Bárbara gemeu em comiseração. Receou que o seu novo grande amigo tornasse a ser o que não gostaria de ter sido, algo que ele contara de forma bem relutante na última vez em que ela e a irmã subiram a cordilheira.
– Pior: quando deixei o carro e me virei para voltar a este cabaré, ouvi ainda um “milico filha da puta”. Foi demais. Puxei minha Colt e enchi a fuça dele de bala.
– Meu Deus!
As irmãs exclamaram em uníssono, chocadas. O visconde fez um gesto amplo e vago com as mãos, num sinal meio estrambótico de despreocupação.
– Acalmem-se, garotas. Uns balaços na testa do dragão é o mesmo que nada para um couro escamoso como o dele. Sim, ele largou fagulhas de raiva, voltou ao seu canto mais ressabiado do que viera, mas é absurdo que tenha se ferido com meros projéteis de 9 mm. Acalmem-se e aproveitem o vinho.
O Visconde naturalmente sabia muito mais do que dizia. No que se refere ao Dragão, poucos têm mais conhecimento que ele.

***

Longe dali, mas a caminho do norte e da Cordilheira dos Anjos, era servido o jantar no Expresso Setentrional. O carro-restaurante da Primeira Classe estava lotado com a grã-finagem que ia às montanhas a caminho da temporada de esqui e adoraria forrar seus exigentes estômagos com o famoso serviço de bordo, cuja cozinha era das mais aclamadas pelos admiradores de refeições em trânsito. A Revista Molière, em especial, comparava o Expresso Setentrional ao Orient Express e o trem da Ferrovia Transiberiana – chegava ao excesso de afirmar, ainda, que o conforto oferecido no trem excedia em muito o mítico Fliyng Pussyfoot. Pouco importava se pairavam indícios de propina ao dono da revista – a companhia ferroviária esbaldava-se na glória.
O destino de Samuel era além das cidadezinhas montanhesas e das estações de esqui; ele pretendia descer numa pequena estação de serviço a poucos quilômetros da fronteira, apesar da perplexidade do bilheteiro ao saber disso.
– Mas, meu senhor – disse o bilheteiro – não há nada naquela estação.
Samuel limitou-se a grunhir um “exatamente” e despachou-o com um gesto..
A estação de serviço coincidia em ser o ponto mais alto da cordilheira atendido por estradas e pela própria ferrovia. Seria um excelente ponto de partida para a sua procura, ainda mais com os equipamentos que dispusera, além de não correr o risco de ficar sem suprimentos. Montando uma base ali perto, como o Doutor o aconselhara, seria muito mais prático do que procurar a partir da Cidade do Norte, apesar de todas as conveniências logísticas e a ajuda das Irmãs Meianoite.
O rapaz pensava nestas conveniências quando outra ideia atingiu-o de chofre; discretamente, interrompeu o antepasto e chamou o garçom. Pediu um papel de telegrama, e ao receber escreveu as seguintes linhas, endereçada à residência de Madame:

Mo, perdoe-me a desobediência, mas a Cidade do Norte não é mais uma base razoável, depois da confusão que eu Xurume armamos por lá. Ainda assim, manterei contato com as Irmãs Meianoite, elas podem ser de muita ajuda.
Sua ausência foi muito inoportuna, mas consegui segurar as rédeas do Cafofo no período. Elena di Carrara ofereceu ajuda, e como somente a área de ciências foi restaurada no Cafofo, viro-me com o possível.
Espero que sua viagem tenha sido proveitosa. Atenciosamente, S.

***

Madame ajeitou a manga do magnífico quimono com estampas de flores de pessegueiro, à espera de seu anfitrião. Suas tarefas não residência do Sr. Masamune estavam longe de terminar, e em seu peito crescia a ansiedade. Não recebia notícia alguma de seus negócios, e isso a deixava facilmente irritável – algo muito inconveniente quando em presença do ancião japonês.
Os dois mantiveram extensas discussões após a sessão de leitura da areia. Kaito, demonstrando um conhecimento incrível sobre os acontecimentos do submundo, manifestou sua apreensão no fracasso em capturar o Chapeleiro Branco, e repreendeu duramente a Madame por isso.
– Mas eu não tenho nada a ver com aquilo, Masamune-san – argumentou Moema – isso foi obra dos italianos.
– Pilhérias – cuspiu ele – tudo pilhéria barata! Havia dois de seus homens no meio daquilo tudo, e você é a responsável por ele.
– Um – devolveu Madame, levantando o dedo ameaçadoramente – apenas um estava sob meu comando. O outro já deixou o Cafofo há algum tempo.
Com esta gaucherie, a topetuda Madame teve de escutar como os mestres são responsáveis pelos seus pupilos até a hora da morte de um deles. Kaito Masamune fazia questão de empolar os modos num ar pedante e professoral.
– É por isso, minha filha – completou ele – que seus primeiros samurai já te deixaram. Porque você não tem responsabilidade.
Madame pensou em comprar uma bomba H e jogá-la na inocente Islândia.

***

O alerta de espiões a bordo colocou o Tigre e os asseclas italianos em alerta: jamais as cabines ficavam sem vigilância, a fim de evitar o furto da valiosa documentação elaborada pelo grupo científico. Sabendo que o exército também estava à procura do bicho, eles deviam estar sedentos de informação, e o Cafofo, neste caso, possivelmente estava bem à frente na corrida.
Era isso que o rapaz pensava.
No entanto, a iminência de ter seus passos observados não era agradável a Samuel, que manteve-se irritadiço e desconfortável até ali. Já era a terceira noite de quatro no Expresso Setentrional, e as latitudes da Cidade do Norte há muito foram ultrapassadas. As duas potentes locomotivas diesel
-elétricas impeliam o trem Cordilheira dos Anjos acima, malgrado a baixa velocidade da composição devido ao terreno difícil . A paisagem tornou-se inóspita e repleta de neve à medida que o trem serpenteava as montanhas em direção à fronteira.
Os passageiros adaptavam-se ao ambiente e diminuíam o tom das conversas e adquiriram um estranho temperamento arredio, um tanto quanto cansados do ritmo monótono do trem. O carro restaurante, longe de resplandecer como um cassino a exemplo da noite anterior, agora era repleto de uma gente taciturna e febril, que consumia a refeição em silêncio, para logo em seguida se recolher Às respectivas cabines.

Algo não passou despercebido a Samuel, no meio disso tudo.
Os espiões, facilmente reconhecíveis pelo porte empertigado inerente à soldadesca, cochichavam e zanzavam de um lado a outro do trem. Lançavam olhares rápidos e desconfiados ao rapaz e seus companheiros, reunidos uma mesa.
– Teremos algo com que brincar – asseverou Giacomo – eles estão muito salientes.
Samuel levantou uma sobrancelha, intrigado.
– Seja o que for, espero que não tenha a ver com a gente. Por precaução, estão armados?
Giacomo e o companheiro acenaram em concordância. Samuel apalpou a inseparável Parabellum no coldre embaixo do paletó.
– Então vamos aguardar.
O trem segui por mais meia hora sem trancos, e a velocidade aumentou gradativamente. O trecho a seguir era relativamente plano e contínuo por alguns quilômetros, e havia um entroncamento com um ramal logo à frente. Tendo permissão pelo rádio e pela sinalização da ferrovia, o trem sequer reduziu a velocidade: seguiu adiante a toda. Porém nada disso estava na cabeça de passageiro algum no momento e também jamais seria digno de nota, se não fosse a súbita e violenta frenagem da composição dois quilômetros depois.
Os passageiros aterrorizados seguraram-se onde podiam, enquanto o trem guinchava nos trilhos. Sendo noite alta, o pouco que se podia divisar do lado de fora era praticamente nada, contado-se somente as luzes bruxuleantes dos vagões.
Samuel não perdeu tempo: levantou-se, seguido dos dois guarda-costas, a caminho sua cabine.
Contudo, a porta de comunicação dos vagões estava guardada por um dos espiões, agora devidamente fardado com o traje militar de campo. Samuel sequer tomou nota do soldado e avançou para a porta, mas foi interrompido por um tapa rude e autoritário no peito.
– O senhor não irá sair daqui.
– É claro que vou! – Samuel levou alguns segundos para perceber o soldado – não há porque ficar aqui congelando enquanto o trem estiver parado. Voltarei a minha cabine.
Os dois guarda-costas, logo atrás, retesaram-se à espera de combate. O soldado não retirou a mão esquerda da frente do rapaz, mas a direita descansou no coldre da pistola.
– O senhor queira ter a gentileza de voltar a seu lugar.
– Faça você a gentileza, você quer dizer – corrigiu Samuel, agora com a fúria subindo pelas artérias – de tirar a fuça da minha frente e colocar esse braço no seu lugar antes que eu o faça, cabo.
Um pastor protestante roliço que aguardava impaciente para retornar à sua ungida cabine e sua diabólica amante, resolveu entrar no páreo.
– Em nome de Jesus, SAI DESSA PORTA, SOLDADO DO TINHOSO!
O pobre militar, crente desde criancinha da inefabilidade da doutrina evangélica, tomou a imprecação como um soco no rosto.
– Meu bom senhor! Eu não…
O “posso” não saiu. Samuel aproveitou a distração e acertou-o em cheio no meio das costelas. Os dois capangas já iam finalizar o trabalho, mas Samuel instou-os na mesma hora.
Correram à cabine e, por sorte, tudo ainda estava por lá. Samuel pegou uma garrafinha na sua mala e puxou uma caixa de documentos.
– Não fiquem aí olhando – rosnou – me ajudem.
Giacomo e o outro fizeram o mesmo. Abriram os frascos e jogaram o conteúdo nas caixas. Rapidamente, tamparam as caixas de novo e aguardaram instruções.
– Pronto. De papel eles não terão é nada. Agora, precisamos sair daqui.
– O que será que aconteceu, signore?
– Evidentemente nós fomos descobertos, ou decidiram que nós estávamos à frente demais. Não sei, Giacomo. O que interessa é deixarmos o trem o quanto antes.
– E andare dove, signore? – disse o outro guarda-costas – Non c’è niente qui!
Samuel interrompeu sua linha de pensamento e olhou para a janela. De fato, não havia traço algum de civilização que não fosse a própria ferrovia. Droga! Até onde a vista alcançava – quase nada, naquele breu – só se via rocha, neve e trilhos de trem.
Uma emboscada perfeita. Provavelmente o trem foi parado por uma guarnição talvez um pelotão inteiro. Não havia aonde fugir. Xeque-mate.
O rapaz suspirou, derrotado. Mesmo que eles fugissem, acabariam mortos de inanição ou facilmente capturados.
– Ha agirone, amico mio – disse Samuel – nascondiamo le armi che i soldati verranno qua.
Em pouco menos de um minuto, eles conseguiram abrir a forração do teto e esconder as pistolas e os coldres ali. Não era muita coisa em matéria de esconderijo, mas era melhor do que nada e poderia assegurar uma saída pacífica para a situação.
Poucos segundos depois de eles fecharem o teto, o exército invadiu a cabine pela porta, aberta com a chave-mestra do bilheteiro. Desta vez o cabo, recomposto, estava acompanhado de mais 5 soldados e um tenente.
– São eles?
– Sim.
Venham – ordenou o tenente – vocês estão sob custódia.

***

Ainda no quarto do hotel em que estava hospedado, na Cidade do Norte, o Coronel Leitão, Visconde do Paranoá, abriu um telegrama que recém fora deixado embaixo da porta.

O Marechal L. tomou as rédeas da operação e deslocou o trem de transporte, que ficou preso na nevasca. Um trem civil, com possíveis caçadores em observação, vinha logo atrás. Foi interceptado e os suspeitos, detidos sem resistência. Eles seguirão conosco no trem.

– Merda!
O coronel vestiu-se às pressas e correu ao Buenos Aires espalhar a notícia.

Contos do Cafofo [VIII] – Flores de Cerejeira ao Vento

26 nov

A neve caía sem parar desde o início da manhã, algo absolutamente incomum no verão islandês. Através da janela do restaurante, Madame distraiu-se vendo os floquinhos derreterem no chão e não notou o garçom trazer o café. Um momento depois, recomposta, pôs-se a pensar em coisas mais úteis, e provar o café horrível daquele lugar.

Jamais imaginaria encontrar um jardim japonês tão bem cuidado naquele país distante, mas foi ali que ela encontrou a residência do sr. Masamune, praticamente transposta pedra por pedra da sua Kyoto natal. Embora o tenha visitado no Japão uma única vez há muito tempo atrás, era impossível esquecer a sensação de paz e aconchego de sua casa – exceto por aquela desgraça de bambu que insistia em encher de água e esvaziar com os sons de PUC, shhh, PUC no laguinho artificial – que a residência original lhe proporcionara. Para sua surpresa, cada folhinha foi reconstruída ali, em plena Reykjavik.

Mas com Kaito Masamune havia um rito a seguir, onde quer que fosse: uma primeira visita de apresentação, uma segunda visita no outro dia para conversas casuais e finalmente a última, na qual se trataria dos assuntos pertinentes. Não deveria haver pressa nem qualquer desrespeito aos ritos do dono da casa. Tudo muito zen.

À merda com todo esse zen, Madame praguejou mentalmente.

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Contos do Cafofo [VII] Allegro

26 out

Malgrado o ímpeto ansioso do seu Tigre em voltar à capital, Madame decidiu mantê-lo em quarentena no Buenos Aires por três dias, sob vigilância estrita das Irmãs Meia Noite e de Elena di Carrara. Os rumores do banho de sangue ocorrido para lá da Josino chegaram à sua casa, e apesar de ficar satisfeita com a integridade de seus meninos, a repercussão da escaramuça foi alta demais para uma busca que se pretendia ser, no mínimo, discreta. Nem tanto pela inconveniente visita do Visconde do Paranoá em sua casa — mas a queda repentina de um dos barões do crime na Cidade do Norte chamou a atenção da polícia, da mídia, et caterva.

O único ponto positivo daquela confusão certamente foi o repentino aparecimento do Dragão na cidade, fato que nem seu Tigre nem Xurume ficaram cientes, uma vez que eles estavam mais preocupados em fugir do sítio a olhar para o céu. Justo, muito justo para quem estava rezando por uma brecha para fugir, pensara Madame, mas nenhum dos seus meninos era de deixar um fato daquela magnitude escapar assim. Ela tampouco transmitiu essa informação ao rapaz — ele que se virasse.

“Aliás, o que diabos Xurume fazia na Cidade do Norte?, porra!” e outras questões atormentavam Madame na sua sala do Cafofo, enquanto ela coordenava a manutenção dos laboratórios. Teria pelo menos cinco dias até Samuel pisar no Cafofo novamente, e usaria o tempo para deixar os equipamentos nos trinques e convocar seus antigos colaboradores da aal científica.

A ordem inicial de encontrar o Dragão estava sendo seguida à risca, mas será que o Tigre realmente entendeu o que era para fazer depois? Madame questionava, ainda se não estava dispendendo recursos demais para fazer… bem, para fazer o que era preciso. Era algo interessante de ver, mas e depois?

Sempre essa pergunta.

Seria hora de chamar o Menino também?

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Contos do Cafofo [VI] Zona de Guerra e Um Dragão À Espreita

12 out

O sol não ultrapassou a barreira cerrada das cumulus-nimbus que estacionaram na Cidade do Norte. A noite passou longa e inquietante para lá da Josino e também para as grandes e geladas montanhas, de onde as Irmãs Meianoite acabaram de chegar.

Era meio-dia. Angélica adentrou o Buenos Aires com os olhos fiscalizadores de gerente, mas tudo estava em ordem. Em um dia de ausência, as quenguinhas bestas não puseram a casa abaixo, e isso era um alívio.

Mas nem tudo estava como deveria. Havia um insólito movimento para o horário: dezenas de sujeitos bem vestidos — apesar de que com um senso sofrível de estilo, Bárbara disse mais tarde — portando grandes malas, andavam por todo o lado. O saguão estava cheio como uma sexta-feira vespertina.

— Mas que m…

Angélica conteve a imprecação ao ver surgir entre os brutamontes uma garota baixa, vestida de negro da cabeça aos pés. Dava ordens ríspidas e os homens assentiam, cabisbaixos e amedrontados. Falava rápido e alto, mas a balbúrdia da multidão impedia as irmãs de escutá-la.

Surpresas e desnorteadas, as irmãs viam do vestíbulo a balbúrdia no saguão. Entre uma ordem e outra, a mulher de cabelos negros divisou as donas do cabaré, e pôs-se a correr até elas. Assim que chegou, o temor das irmãs desanoviou. Conheciam aquela garota.

Buon giorno, queridas. Ci scusiamo pela confusione, ma siamo avisato dalla signora che mio cugino idiota sta com alguni problemi qüi in città del norte.

A menina disse isso com certa timidez, logo quebrada pelas Irmãs Meianoite, que a abraçaram longamente.

***

Planando nas nuvens entre as montanhas, o Dragão refletia. Pensou no que foi dito às Irmãs, e no que aquele novo perseguidor podia representar. Poderia ser alguém mais desengonçado que os outros caçadores, mas as Irmãs não teriam ido tão longe se ele não representasse uma ameaça efetiva.

Ameaça a quê?

À paz conquistada a duras penas, depois de fugas e provações. Evidente.

Decidiu ir mais uma vez à Cidade. Seria fácil achá-lo pelo cheiro, Angélica tinha trazido uma meia usada do rapaz.

***

Na varanda de sua casa, Madame não conseguia apreciar o brunch. Gostava mais das refeições rápidas e temperadas com ódio e berros que, não muito tempo atrás, ocorria com frequência em sua sala no Cafofo. Agora, porém, nenhum dos seus garotos estava por perto. Pior: tinha que se contentar com aqueles pães secos e refeições “saudáveis” que o médico lhe recomendara, e os seus cozinheiros eram mais teimosos que os seus capangas. Estava obrigada a se contentar com aquele tanto de alface e fibras, ou então aguentar a fome.

Com desânimo, cortou um ovinho de codorna cozido. Não notou a chegada do homem que se aproximava.

— CACETE — Madame quicou de susto ao ver o militar empertigado ao seu lado — como ousa entrar na minha casa desse jeito, sem se fazer anunciar, seu…

O homem levantou as mãos em tom de desculpa, apesar de não expressar o menor remorso pela gaucherie, o que Madame ponderou ser justo a julgar pela miríade de condecorações espetadas no fato militar com as patentes de coronel. Apesar de não ter a menor noção daquela hierarquia, ela conhecia muito bem o colar do viscondado que ele ostentava. Após essa observação, empertigou-se na sua cadeira.

— Está frio aqui fora, visconde, e o sol não me aquece. Convidaria o senhor a participar do brunch, mas isto aqui está tão mal feito que seria vergonhoso.

— Engana-se, Madame. Ao contrário do que aparento, não sou de nove-horas.

— Certamente que não. Provou isso ao entrar na minha casa de maneira tão inoportuna.

O visconde puxou uma cadeira.

— Perdoe-me. Não gosto dessas formalidades, e até onde me consta, a senhora também não. Serei rápido. Sou o Coronel Leitão, Visconde do Paranoá. Tenho informações de que a senhora está pondo as mãos em uma… situação… extremamente confidencial, na qual, até onde sei, não é da sua conta. Quero que reconsidere sua posição antes que algo realmente desagradável possa acontecer.

— É verdade, visconde. Mas eu não trato com sua gente…

— Tem toda a razão. Sua vida é toda voltada ao submundo.

Madame atirou-lhe uma baguete, em fúria.

— Meça suas palavras, milico de merda! Você está na MINHA casa!

O visconde curvou-se, numa mesura sarcástica.

Mea culpa. É melhor falarmos de negócios.

— Mesmo?

— Sim. Veja, o capanga que você mandou atrás do que estamos procurando.

— O que tem ele?

— Ele está mesmo atrás do que eu acho que esteja? Porque não vejo motivo em pôr a máfia da Cidade do Norte em guerra como ele está fazendo.

Madame sorriu, orgulhosa. Teria muito o que repreender quando ele voltasse.

C’est la guerre, senhor coronel. Ele faz o que sabe fazer melhor. O caos.

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Contos do Cafofo [V] A Fúria do Tigre Acuado

26 set

O Dragão espiou Angélica estender o braço par a pegar a chaleira na fogueira, absolutamente sem o menor jeito com as roupas pesadas par ao frio que fazia no alto das montanhas. Era uma situação divertida, mas nem mesmo ele seria tonto de ousar provocá-la. A moça enfiou dentro da chaleira algumas ervas que trazia num saquinho, o que fez exalar um leve aroma de cadarmomo e gengibre no ar. Bárbara adiantou-se e e pegou três canecas de metal na mochila, estendeu-as numa pedra e aguardou Angélica pôr o chá em cada uma delas.

Angélica guardou a chaleira e estendeu uma caneca de chá ao Dragão. Ele não bebeu de presto, aguardando um complemento que não viria.

– Não tem açúcar?

Angélica lançou-lhe um olhar assassino em resposta.

– Açúcar é coisa pra veado.

– Pelo amor de Deus! – Bárbara censurou-a – custa pegar o saquinho de açúcar que…

– O inferno! – respondeu a outra, alteradíssima – Este lazarento atira fogo pelas ventas e você tá preocupada com açúcar?! A gente vem aqui nesse FRIO da PORRA avisar o traste de que tem mais alguém atrás dele e o que recebemos em resposta? “Não tem açúcar?” Ridículo! Inaceitável!

O Dragão apurou os ouvidos para a discussão. Via de regra, o modo mais fácil de obter informações das Irmãs era jamais partir para um confronto direto: elas próprias acabariam entregando o jogo em breve. Assim ele julgava.

Contudo logo ele percebeu que, desta vez, a peleia seria infrutífera. As duas partiram sem demora par auma troca violenta de ofensas, o que fez o Dragão apartar a briga com a presença que lhe era característica, apesar de não estar em sua forma carismática, por assim dizer.

– Meninas – disse ele – será que vocês podem me dizer quem está atrás de mim agora? Com os militares e um monte de caçadores independentes aqui na cordilheira, tem que ser alguém muito perigoso para fazê-las subir até aqui. Estou errado?

– Não está – tornou Bárbara – portanto queira ouvir o que temos a dizer.

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Contos do Cafofo [IV] Para Lá da Josino de Almeida

12 set

Um pouco além de onde a vista humana era capaz de alcançar, o Dragão divertia-se em perfurar as Majestosas Cumulus Nimbus que esgueiravam-se no topo das montanhas da Cordilheira dos Anjos.Os montes brancos e escarpados praticamente se confundiam com o algodão das nuvens, o qual normalmente esconde portentosas tempestades. Mas nada disso parecia afligir a criatura que saboreava entrar nas nuvens, passear entre a violenta tempestade interna, e voltar à serenidade dos céus.

Acaso ali estivesse algum aventureiro sem amor-próprio, provavelmente sequer perceberia o brilho fugaz das escamas do dragão, nos poucos momentos em que ele fugia da proteção das nuvens. O próprio Dragão, ciente de estar em local seguro, apreciava sua quase infinita sensação de liberdade; após brincar com as nuvens, experimentou fazer loopings e cair em parafuso, tal qual aviões de caça. O céu era sua casa, e a Cordilheira o seu jardim.

Compreensível, pensava ele. Depois de tanto tempo cativo, era tão gratificante sentir o ar…

Mas sua visão aguçada percebia a movimentação errática de um pelotão militar, muitos quilômetros adiante. O Dragão quase podia divisar a silhueta do oficial, aos berros, tentando fazer o equipamento de detecção funcionar – era patente que eles não iam bem.

De vez em quando ele também identificava um ou outro caçador independente, quase todos absolutamente despreparados diante do clima rigoroso das cordilheiras. Às vezes um magnata qualquer subia com o suporte de uma equipe, mas somente uma vez eles chegaram perto o bastante – ele soube, depois de dar um pulo na cidade, que conseguiram captar uma imagem de relance, onde mal dá para ver um pedaço da cauda no canto da tela. Menos mal, pensou o Dragão. Maior o fracasso, maior o meu sossego.

No entanto, após se recuperar de um parafuso mal executado, o Dragão percebeu algo novo. Longe demais para constituir ameaça, duas mulheres pesadamente agasalhadas caminhavam na neve com insuspeita habilidade. Abanavam para o céu, como se chamassem alguém. Uma delas segurava um binóculo.

– Mas que diabos…? As irmãs Meianoite?! – observou o espantado dragão.

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A Mente que foi para Céu e não voltou

24 ago

Pensei em bananas migalhas de pão italiano Aoooi Hanaa escolas de trânsito para habilitados, Rio de Janeiro, o mar.

Chuva.

Oceano oceano, denso e profundo oceano para o qual não tenho defesa.

Água.

Pedra que me salva, rocha, fuja daí, corra!

Pedra da Gávea mata atlântica ipês araucárias pinhão terra preta Paraná.

Terra.

Madame. Rio de Janeiro, de novo. Curitiba, Porto Alegre, Poços de Caldas, Braseeelhaan.

Tóquio.

Hayao Miyazaki, Akira Kurosawa, Clint Eastwood, Ennio Morricone.

Con te partirò

Paesi che non ho mai

Andrea Boccelli

Bela Lugosi

Ich ein Brazillien!

Mar Mediterrâneo

Oceano.

Charles Aznavour, Miriam Makeba, Chico Buarque.

Buarque? Verde. Oceano.

Não, não, não. Outra.

Chapecó. Frio. Serra.

Pedras, a segurança das pedras.

Pedras Brancas, Guaíba.

Água.

Fogo.

Contos do Cafofo [III] – As Irmãs Meianoite

22 ago

— Que disposição admirável! Quer futricar por aqui mesmo com essa carinha de cansado?

O fraco movimento, indispôs qualquer possibilidade de sigilo, o que foi percebido no momento em que uma das meretrizes, moça mulata e esbelta, de andar serelepe e cabelo de pixaim criativo, pôs-se sobre a mesa e ajeitou a lapela do casaco do rapaz, talvez percebendo ali um cliente que valesse a pena. Mas a gaucherie da menina durou pouco: Angélica lançou-lhe um feroz e significativo olhar, o que foi suficiente para pô-la a vagar pelo salão novamente.

— Essas meninas de hoje, cadê a merda da decência? Não podem esperar chegar até a hora do furdunço, essa aí não viu que ele estava acompanhado? Vou ali passar um pito nessas pavoazinhas, porcaria lazarenta — Angélica levantou-se de presto, fazendo um movimento teatral com a echarpe.

— Talvez a mocinha esteja certa, meu bom rapaz — retrucou Bárbara, acompanhando com os olhos o caminhar furioso da irmã — quem sabe uma noite de descanso antes de sair a investigar?

— Desculpe, mas você sabe que isto não é do meu feitio — respondeu-lhe Samuel, pondo o sobretudo ao lado, na cadeira — prefiro tratar disso agora. Além do mais, cidades litorâneas são opressivas para mim, e o Oceano… bem, não tenho defesas contra o Oceano.

— Entendo. Algo para beber?

— Saquê.

— Frescura. Marquinhos!, uísque on the rocks para o garoto.

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Contos do Cafofo [II] Buenos Aires

12 ago

– Pronto. Mme. Várzea Falando.

– Alô, Mo? É…

Oi, minha querida! Que prazer ouvir sua voz novamente; como está você?

– …

– Desculpe, não foi de bom tom perguntar. Deixa eu te contar como andam as coisas por aqui, desde a aposentadoria do Cafofo…

Sei… você não se aposentou coisa nenhuma.

– … desenvolvi meu lado stylist e passei a desenhar para algumas grifes em Paris e Nova York, viu que chique? Tem algumas butiques em Praga e até em Shangai em contato comigo.

E aquele assunto, resolveu?

– Sim, meu amor, mandei o Sam atrás dele, o que você acha? Também está curiosa com o que vai acontecer?

Sim, mas… o Sam, sozinho? Sem o Christiano e o Rodrigo…? Ele consegue?

– Ora, mas é claro. Ele pode se enrolar mais sem o Menino e o Xu a tiracolo, mas nenhum deles pode ajudá-lo agora, você bem sabe. Além do mais, o Sam tem muitos amigos que o apóiam, seja lá a diatribe que for.

Eu sei, mas…

– Conta, Dani, como estão as coisas? Alô? Alô? … droga.

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Pequeno Esclarecimento

8 ago

Os Contos do Cafofo têm pesada carga pessoal e emocional e repleta de referências a pessoas que conheço e que fazem ou fizeram parte da minha vida, ou em algum momento foram, são ou serão próximos.

 

Se você, amigo(s) meu(s) que vê(em) estes meus contos pela primeira vez, se sentiu(ram) identificado(s) com algum(ns) personagem(ns), respondo:

 

 

 

é isso mesmo.

Contos do Cafofo [I]

8 ago

[Sem Data]

Querida Madame,

Aprecio muito seu convite para o chá, mas questões internas de meu novo trabalho detiveram-me aqui em casa durante o fim de semana. Engendro grande esforço em viver de maneira honesta, uma vez que já não possuo mais seu suporte, como bem sabes. Mas você pede notícias, ao que farei por ora.

Dispensei muito tempo pensando o que fazer quando o fim da minha vida tranquila aparece de súbito, assim, chegando num sedã negro depois de tanto tempo. Será que aquela dúbia centelha no peito, relegada a segundo plano diante das ocorrências que culminaram no fechamento do Cafofo, finalmente terá oportunidade de ser uma chama completa e me aquecer como deveria? Pois assim me senti, você sabe, quando vi o “verde-oceano” novamente.

Adoraria escrever mais, minha querida Madame, mas não quero tomar o seu tempo.

Sempre atenciosamente.

Madame não conteve um “baah” de raiva quando terminou de ler a carta cuidadosamente datilografada pelo seu antigo empregado. Amassou-a e guardou numa gaveta. Escreveu a resposta furiosamente num papel de telegrama:

não importa, seu idiota, venha para o Cafofo imediatamente. É importante.

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2004

4 ago

Em 2004 eu caminhava a passos largos a fim de reorganizar minha vida.

Há um ano usava implante coclear, isto é, tinha grau elevado de compreensão da fala, mas ainda apanhava vergonhosamente ao tentar escutar a voz no telefone.

Graças a essa volta ao mundo sonoro, tive um surto de entusiasmo sem precedentes; quis recuperar os anos perdidos envoltos nas trevas do silêncio, atenuados somente pela doce amargura de Dostoievski, Tolstoi, Wilde. Continuei a contragosto a faculdade, mas desenvolvia milhares de atividades em paralelo: fui secretário na associação de surdos local; dei aulas de informática como aos surdos e outros PNE como voluntário numa escola técnica estadual (a intérprete suava frio quando eu “falava difícil”); azucrinava professores, intérpretes e religiosos que tivessem alguma relação com surdos; briguei em escolas municipais, ciceroneei políticos medíocres que ambicionavam os votos dos faladores de Libras, apaixonei-me pelos magníficos olhos claros da Daiane… e ainda era pouco. Um ano depois, fiz as malas e voei para Brasília.

Bem, em 2004 voltei a ter amor-próprio, acho.No período negro, que eu coloco entr 2001 e 2004, o hábito de ler e escrever tornou-se obsessivo; a biblioteca pública da cidade era ridícula, li o que prestava em poucos meses; ia a Porto Alegre somente para subir até a Riachuelo e mofar na Biblioteca Pública. Eu buscava no papel a luz que iluminaria o breu da minha vida. Eventualmente eu conseguia isso, mesmo que por um momento fugaz.

Em 2004 tive que reduzir o ritmo. Os olhos reclamaram, passei a usar óculos. Com o implante coclear, foi sinestesia pura: encontrei a luz que eu buscava na primeira vez em que voltei a escutar o ruído de chuva: pequenos diamantes caíam do céu, estatelando-se no infinito chão de cristal. Barulhinho muito mais bonito que a chuva original.

Até 2004, portanto, eu produzi quantidades imemoráveis de lixo adolescente, mas já naquela época a pulga do silício já me mordia. Tudo o que eu escrevia – ou ao menos, grande parte – era guardado no computador. Algumas coisas eram escritas em blogs que não existem mais.

O que eu mais gostava era de escrever pequenas histórias ficcionais envolvendo eu e meus amigos; eram pequenas crônicas escapistas cujo cenário era uma cidade dos anos 30/40, repleta de prédios Art Déco. Boa parte das histórias passavam-se no Cafofo, prédio de cinco andares e sem janelas localizado na zona industrial. Era um modo de reunir amigos que de outra forma estariam geograficamente distantes, que eu conversava somente por ICQ e MSN, mas que foram de grande importância no meu período negro. Sem eles eu teria afundado, com toda a certeza.

Não sei se algo do que eu tinha escrito se salvou ao longo do tempo, mas hoje o Google está aí para mostrar nosso passado sombrio – e recuperou, por meio de outro blog, justamente o primeiro desses textos, inspirado loucamente pela crônica “A Madame e o Poeta: O Tiro que eu te Dei”, no blog da Danicast (beijo, Dani! :) ). O link aponta para uma página desconhecida, mas o signatário o mantém por irrestrita admiração à dona.

Resgatei o pedaço de texto do Copy & Paste.

Christiano, pálido como farinha de mandioca, suava frio. O cano da pistola, a pelo menos um metro e meio de distância, mantinha-o em silêncio apavorado. Os olhos – sim, Chris estava sem chapéu – tinham a resignação de quem está pronto para ir de encontro a São Pedro nos próximos instantes. Enquanto isso, Samuel encarava-o, praticamente deixando Rodrigo fora de percepção. O jovem misterioso tentou falar. Samuel esforçou-se em ouvir, mas o processador de fala estava com suas pilhas descarregadas.
- Fala mais alto – disse Samuel.
- Eu… eu… só pedi fogo, uai! Não precisa apontar este trabuco nimim!
- Você pediu fogo, agora vai ter.
- Sam, calma…
- Calma o quê?! Pelamordedeus, vocês estão malucos.
O dedo indicador de Samuel empurra a alavanca. Christiano vê sua vida, seus amores perdidos, seus filhos que nunca irão nascer em toda essa fração de segundo. O coração empurra o diafragma para a baixo, e quase ao mesmo tempo, sobe até as amígdalas, juunto com um pavoroso berro que também durou uma fração de segundo.
Rodrigo, de olhos arregalados, não moveu uma célula de seu corpo; nessa fração de segundo, sabia que não podia e não devia fazer nada para ele também não levar uma bala entre os olhos. Samuel estava louco, era preciso interná-lo imediatamente.

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