Arquivos | fevereiro, 2012

Chá na Cidadela

22 fev

 

Um dos motivos deste Sátrapa estar um tanto abandonado é o projeto de Light novel que estou desenvolvendo nas horas vagas. É exaustivo, mas muito divertido. Uma forma de desenvolver melhor o background e compor a psique dos personagens, dar vida a eles e ao próprio ambiente, é escrever pequenas histórias paralelas dentro do mesmo universo — o país que tem mais de dez anos de criação, mas ainda sem nome, que é o ambiente dos Contos do Cafofo. Separei uma das histórias paralelas para publicar aqui. Deleitem-se.

 

 

A Cidadela, ilha verde de 10 hectares incrustada no meio da cinzenta Capital, inicialmente era terra de uso exclusivo da família real; hoje, aqui e ali havia residências e palacetes dos cortesãos mais próximos e seus herdeiros, além de uma ou outra celebridade disposta a pagar o preço nababesco do aluguel para algum nobre de bom nome e péssimas condições financeiras. A oeste, bairros ao redor da Cidadela concentravam a aristocracia e os endinheirados sem título de nobreza, enquanto a leste os espigões do centro compunha o horizonte cinza e denso como era de praxe no resto da Capital.

 

Perder-se na Cidadela era quase regra aos visitantes que ousassem aparecer sem um guia pela primeira vez. Vielas idênticas e extensas, calçadas com paralelepípedos de basalto, e alamedas estreitas de abetos e araucárias, nas quais a largura era suficiente para apenas um carro, eram o terror para qualquer um que não tivesse uma bússola consigo. Naturalmente, algumas residências eram famosas pelos frequentadores que “chegavam por acaso” vez ou outra, tal qual o Bangalô de Inverno da Duquesa Carmínia, A Eterna.

Não era esse o caso de Madame, é claro; o Rolls Royce branco que buscara-a um dia após o mensageiro real entregar em mãos o bilhete timbrado de Sua Majestade rumava direto ao Jardim Setentrional, a meia légua do Palácio Real.

 

Fazia cinco anos desde a última vez em que Madame fora convidada ao chá da tarde do Rei, mas parecia-lhe que tinha sido ontem, embora a mesa Luís XIV agora estivesse à sombra de um angico de plantio bem recente, e não do frondoso flamboyant que fazia estender um tapete vermelho com a queda de suas flores.

— Madame M., é sempre um prazer — o Rei a ribombou, em pé, com sua típica voz de barítono — confesso ter receado de que a senhora não fosse responder em termos favoráveis ao meu convite.

Madame inclinou a cabeça, com um meio-sorriso. A etiqueta era-lhe repugnante, mas mesmo aqueles encontros tinham um protocolo a seguir. A presença de apenas um serviçal e nenhum auxiliar ou ministro era indicativo de que sua presença, e tudo que fosse tratado no chá, seriam confidenciais. “Interessante. Tomara que seja algo lucrativo”, pensou. Ela retornou o cumprimento com atípica voz calma.

— Majestade, é sempre uma honra esta serva ser útil.

 

O Rei indicou-lhe a cadeira e acompanhou a o assistente com olhar severo, enquanto este a ajudava a sentar. Assim que ele terminou de pôr a mesa, o Rei voltou à sua cadeira e estirou as costas, relaxado. Seus olhos negros e brilhantes acompanharam sem pressa uma nuvem branca empurrada graciosamente pelo vento forte da tarde.

Madame, por outro lado, não estava muito disposta a longos e poéticos silêncios. Achou melhor entrar no assunto, seja ele qual fosse:

— O Chapeleiro Branco não é mais problema.

O Rei não fez questão de tirar os olhos da sua nuvem.

— Mesmo? Soube que seu agente fez um verdadeiro trabalho de mestre desta vez. A polícia da Cidade do Sul pensa que o velho morreu de enfarte durante o sono.

— A morte dele não era necessária. O Sr. Xavier entendeu isso como um acerto de contas, e foi atrás daquele pervertido por conta própria.

— Mal a senhora chegou e está falando de morte e sofrimento, Madame Mavi — O Rei suspirou, enfastiado — devíamos celebrar a beleza da vida e a vicissitude das nuvens. Não acha?

— Não — estatelou Madame, com rancor crescente na voz — não há porra para celebrar quando eu quase perdi um veículo muito importante e meus filhos para os seus mísseis e aviõezinhos.

O Rei baixou os olhos, com o cenho carregado. Madame M. continuou, implacável.

— O Ártemis é único, você bem sabe, sabe quem o projetou e o quanto vale. Não sei que idiota teve a ideia extraordinária de derrubar o meu zepelim com aqueles mísseis tenebrosos, mas por sorte, uma sorte filha da puta, se me permite, eles conseguiram fugir dos seus carniceiros. Fugiram sem leme, e só conseguiram pousar duas semanas depois na Islândia, quase mortos de fome e frio.

— Madame — tornou o Rei, sem olhá-la nos olhos — isso foi há seis meses, e as Forças Armadas foram devidamente repreendidas por conta deste episódio. Além do mais, todos estão fora de perigo…

Quarenta pessoas no Ártemis, Majestade! Treze feridos! Um morto! Racionando os víveres para não morrer de fome!

 

A voz de Madame cortou o ar como uma lâmina de fogo. O Rei encarou aquele semblante furioso a contragosto. A conversa tomou um rumo longe do esperado, mas quarenta anos ouvindo apenas lamúrias cínicas de políticos dissimulados dificilmente iria prepara-lo a lidar com a fúria virulenta de Madame. Não podia negar que o arroubo protetor da pequenina figura sentada à sua frente era no mínimo justa.

Por conta própria, numa cortesia repleta de culpa, o Rei pegou o bule e serviu chá nas xícaras. Indicou a leiteira e ofereceu, num gesto suave.

— Não, obrigado.

Madame aproveitou a pausa para respirar fundo, tentando recompor a serenidade. Bebericou o chá. Era delicioso. Earl grey com toques de bergamota argentina e um tantinho de cravo.

— Tente entender, Madame — tornou o monarca, um pouco mais seguro de si — eu não pude fazer nada. Seus amigos e o Exército estavam atrás da mesma… coisa. Aquele seu rapaz estava preso numa instalação militar de segurança extrema e mesmo assim ele fugiu de um jeito que beira o humilhante para militares acostumados ao ego da farda. Eles têm brio, e meu gabinete estava completamente no escuro quanto à operação dos oficiais.

Madame respondeu com um bufo.

— Além do que, a coisa voltou ao laboratório por vontade própria, segundo me consta.

— E agora esses oficiais insignificantes têm mais poder que o senhor, Majestade.

— Bobagem, Madame M. Esta monarquia é constitucional, e meu poder moderador é ridiculamente mínimo. Até o prefeito tem mais poder do que eu. Nosso sistema político está robusto, a máfia foi obliterada – com a sua inestimável ajuda, devo frisar. Está tudo bem!

— Sua Graça está correta — disse Madame, encantada com o sabor arrebatador da beberagem — e o chá está divino. Manter o Cafofo com esta calmaria é muito chato, no final das contas.

— Então a reforma naquele seu prediozinho estranho na Zona Industrial procede?

— O Rei tem olhos e ouvidos muito sagazes. Sim, estou reformando aquele lote para acomodar umas tralhas.

 

O Rei finalmente chegou onde queria, extasiado.

— E o prédio mais alto da Capital, é seu? Soube que está quase pronto.

— Será inaugurado terça-feira.

— Os laboratórios irão para lá, imagino. Lembro deles quando estive na Zona Industrial, a seu convite. Que tecnologia prodigiosa!

— Não, de modo algum os cientistas vão para a Torre. O corpo de pesquisa ficará bem mais confortável na universidade.

Sua Majestade engasgou-se com o chá.

— C-como? Que universidade?

Madame sorriu. Os espiões reais deixaram passar um elefante no buraco da agulha. Pousou a xícara no pires e cruzou os braços, satisfeita.

— A universidade presbiteriana. Soube? Eles entraram em concordata, arrematei tudo por um preço ridículo há coisa de dois anos. Foi um negócio arriscado que tomou boa parte das minhas economias, mas tinha que me ocupar com alguma coisa. E deu certo! A reestruturação foi eficaz, estamos lucrando horrores. Há dois meses transferimos os laboratórios do Cafofo para lá, os estudantes, professores, todos adoraram os equipamentos que vieram do Cafofo… e os pesquisadores do Cafofo estão contentes em trabalhar num lugar mais ensolarado que doze andares embaixo da terra.

 

O Rei, boquiaberto, não sabia o que dizer. Madame continuou, suave.

— Meus garotos estão entusiasmados com a ideia. O Sr. Xavier está quase terminando o seminário, mas já assumiu como capelão e coordenador dos cursos de extensão universitária. Coloquei-o como decano dos bolsistas e dos alunos de intercâmbio. É tão excitante!

Ela sorria animada.

— Sendo uma universidade presbiteriana, há grande afluxo de estudantes norte-americanos e holandeses, creio.

— Sim, Majestade, esses também. Naturalmente temos espaço para eles, é claro, contudo outros países nos interessam, sabe, aqueles mais para cima.

— Hã?

Madame ignorou a interjeição.

— …o Menino está ingressando na pós-graduação, o Filósofo adorou o núcleo de artes cênicas…

— Que diabo de país fica mais para cima?

Madame parou de falar, um tanto surpresa. Encarou o Rei como uma criança olharia para o lunático defecando na rua em plena luz do dia.

— Sua Graça… por acaso o senhor se lembra de Edric Pullman?

Sua Graça ficou muito irritada com o tom de ironia mal contido na pergunta.

— Ora, claro! Ele estudou comigo na Escola Politécnica, ajudei a angariar verbas para construir o primeiro de seus balões, o Intrépido! Foi meu melhor amigo, por Deus, mulher!

— E ele nos apresentou, se bem em lembro.

— Exatamente! Ele veio aqui mesmo, perto daquela bétula, contigo ao lado, vejo como se fosse hoje — ele apontou a mão para árvore — ele disse “veja, senhor Rei”, ele me chamava de senhor Rei só para me azucrinar, o biltre, “veja, senhor Rei, essa Madame tem um pequeno ‘sindicato’ bem diferente dos outros que estão destruindo o país, veja, ela tem os algumas ideias ótimas para acabar com esses mafiosos de merda”; ele disse isso, e depois que vocês acabaram com todos menos os Chapeleiros, ele construiu aquele lindo zepelim, o “Ícaro”, capaz de subir quase ao espaço, singrar junto às estrelas, e descobriu aquela passagem insólita para outro lugar. Sim, ele mesmo. Como haveria de esquecê-lo?

As lágrimas escorreram descontroladas ao longo do rosto real, enquanto Madame estendia um lenço em solidariedade. Era só o guardanapo da mesa, mas ele tomou o pano com delicadeza tal que poderíamos julgar ser da mais cara e pura seda chinesa.

— Ele morreu, Majestade — disse Moema, paciente.

— Sim, ele morreu, Madame, morreu sozinho, longe de casa como ninguém haveria de merecer.

Madame Mavi corrigiu, com delicadeza controlada.

— Não, Majestade, ele morreu com a esposa. Não morreu sozinho, o que tornou as coisas ainda piores para o seu descendente.

— Isso mesmo, ele e a esposa morreram do lado de lá. Edric descobriu a passagem para o lado de lá, lembra?

 

Madame esperou o Rei controlar o pranto; ele fungava baixinho, mas terminou por recuperar a compostura. A ficha estava caindo lentamente, mas Madame continuou:

— Edric passou dez anos indo de cá para lá. Nesse ínterim, ele projetou e construiu o Ártemis e passou anos estudando a ciência de . Edric fundou a primeira e única embaixada deste país que não responde ao Ministério das Relações Exteriores, mas sim apenas ao Rei. Lembra? A embaixada no País Gelado de Alênia, longe de um modo que não podemos mensurar, mas que de certa forma faz fronteira com nosso país. Lembra?

O rei estava aturdido.

— Deus todo-poderoso, tinha me esquecido completamente!

— Mas eu não. Dois anos antes da morte de Edric soubemos que algo além do Ártemis e do Ícaro atravessou a passagem, mas os militares puseram as suas mãos sujas primeiro. E eles praticamente fecharam a fronteira por dez anos ao instalar aquela base militar na Cordilheira dos Anjos. O Ícaro, não, nem mesmo o Ártemis poderia atravessar sem chamar atenção e Edric não voltou mais para cá.

“A fronteira permaneceria fechada se o Ártemis, sem motor e leme, voando à deriva graças aos seus adoráveis soldadinhos, depois de percorrer duzentas milhas náuticas e só vendo Oceano no horizonte, não descobrisse outra passagem, em águas internacionais, mas bem próximo do nosso domínio. Eles foram parar na Islândia, mas não na nossa Islândia.

“Descoberta a nova passagem, pudemos reatar os laços com Alênia, reorganizar a nossa embaixada e, finalmente, montar o programa de intercâmbio da minha universidade”.

— Você e seu Cafofo fizeram tudo isso ao largo da legalidade — disse o Rei, pesaroso — e manter embaixadas é função do governo, não do seu “sindicato”.

Madame deu de ombros. O chá esfriara, e nenhum deles tocou nas guloseimas postas na mesa.

— Como queira, Majestade. Fizemos tudo isso na surdina para não ter a intromissão de espiões indesejados ou dos seus adoráveis militares, os quais não só também agem ao largo da legalidade, como o senhor bem disse, como também possuem a notável capacidade de destruir e apodrecer tudo o que tocam. Além disso, sua Graça não percebeu, mas temos uma dívida para saldar: Edric teve um filho um ano antes de morrer.

 

Parecia ser emoção demais para o Rei. Os olhos esbugalhados de surpresa deformaram a pele negra e luzidia do rosto real, que parecia ter muito menos que os seus cinquenta anos.

— Um filho! Por Deus, as surpresas não acabam nunca!

— Benjamin Pullman, filho de Edric e sua esposa Rosalin. Foi criado em Alênia por uma tutora muito próxima da família, educado segundo as rígidas normas de conduta dos alenianos. Mas eles retornaram com o Ártemis: os dois já estão na antiga casa dos Pullman, aqui na Capital. Ben foi transferido à minha universidade, é um rapaz extraordinário, apesar das maneiras por demais distantes com os colegas. Não há muito que fazer, esse é o jeito aleniano de ser.

— Preciso conhecê-lo, Madame. Pela memória de Edric, ele tem de vir aqui um dia. E farei de tudo para que os militares não maculem essa passagem do Oceano.

Madame soltou uma risadinha involuntária.

— Sua Marinha não tem influência legal ali, sua Graça. E, mesmo se eles tentassem alguma besteira, a passagem nova está protegida tanto do lado de lá quanto do lado de cá.

— Protegida com o quê?

— Não sei os detalhes, ainda não o vi com os meus olhos; os alenianos chamam de Navio Multiproposta Científico. O NMC
Gilgamesh é uma belonave completa, assim como todos os veículos científicos do País Gelado de Alênia, próprios para encararem ambientes hostis. O Tigre ficou maravilhado, chamou de “porta-aviões voador”.

Porta-aviões! Voador! Com mil diabos, Madame Mavi, você não está pensando em deixar um porta-aviões de bandeira estrangeira, e desconhecida!, navegar livremente perto da nossa fronteira! Voador! Como pode isso? Misericórdia!

— Majestade, a nação não é desconhecida, lembre-se que temos uma embaixada em Alênia, embora ela atualmente esteja sem representação diplomática oficial. Não obstante, o Gilgamesh foi o último projeto de Edric Pullman, apesar de sua construção ser muito recente.

Outra lapada na pobre majestade. Ele colocou a mão no peito, com um esgar de dor.

— O… o último projeto… mesmo assim… impossível. Inaceitável deixar um navio desses navegar tão perto sem as saudações nos canais adequados…

Madame suspirou, exausta. Entregou muito mais do que o calculado. Agora era tarde.

— Não só pretendo como asseguro livre trânsito do Gilgamesh em nosso território, sua Graça: ele é parte essencial do programa de intercâmbio científico da minha universidade. Como tal, ocasionalmente ele precisará atracar aqui na Capital.

O Rei deixou escapar uma risada sardônica.

— No porto é que não vai ser!

Madame sorriu, enquanto se levantava para ir embora.

— E no porto não será, Majestade. Eu já esperava uma reação assim. Por isso estou construindo as docas nos extensos subsolos daquele “prediozinho estranho” do Cafofo, na Zona Industrial.

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