Drops: Sam in Rio

21 out

Uma semana nesta que é uma das três cidades que mais amo no mundo serviu para renovar as energias, considerando que ferver não era bem o objetivo. E acabou não sendo, porque a chuva outra vez foi inconveniente acompanhante.

Visitei familiares cujos laços foram perdidos há décadas, e reconstruí vínculos que, espero, manterei ao longo da vida. Família, meus caros, tem história – história que explica como e por que a gente é e, acima de tudo, como devemos ser. Se somos grandes – e sejamos grandes, por Deus – parte disto é porque somos apoiados por gente muito maior. De outro modo, é porque não demos o devido valor àqueles mantenedores – ou, como diz Madame, eles devem mesmo ser belos de uns hijos de puta.

Mas família não se resume apenas a laços de sangue; Madame, como hospedeira, amiga e confidente há dez anos, é mãe amada e adotiva, mãe forte e desbragada que conhece o filho que tem – tal e qual minha mãe biológica, mas as duas não poderiam ser mais diferentes. Mãe, irmão, biológico ou não, a gente considera aquele que não põe os próprios interesses em assuntos que não lhe dizem respeito – esses são parasitas, vermes, gente que não merece atenção e respeito. Mães amam, e amamo-las, sem qualquer condicional. Irmãos são amados e tratados com sinceridade, sem o subterfúgio ridículo das indiretas discretas – não é necessário. Confiança, meus amigos: bem valioso que deve ser estendido a poucos.

Ora, quanta pretensão. Pois é. La nave va.

Além disto, Madame e Leo são pessoas Oceânicas como todo carioca que se preze – gente que tem seus problemas, humanos que são, mas levam a vida com graça e orgulho, exibindo a profundidade acolhedora do Oceano nos olhos, eterna aliada da vida. E pessoas Oceânicas são fascinantes para este Sátrapa, sem a menor sombra de dúvida. :-) São amistosas, hospitaleiras e corneteiras, gente de astral elevado e amistosas sem enxergar a quem, completamente diferentes da sisudez desconfiada incutida desde sempre nos gaudérios, embora ambos sejam muito próximos nos conceitos de honradez e amizade. Raro o carioca que não goste de Porto Alegre, e impossível de encontrar o gaúcho que não deite amores pelo Rio de Janeiro.

Infelizmente, alguns deixam esse Oceano que possuem dentro de si assorear no lodo pestilento da própria pequenez – eles existem, longe, perto, e com muita tristeza conseguimos identificá-los por aí. Pobres coitados, apagados e enclausurados por escolha própria dentro de um grande castelo de nada.

Mundo pequeno: amigo radialista de Madame possui casa em Porto Alegre no mesmo bairro onde passei a infância. Identificação imediata? Ora se não.

Gente bonita no Rio de Janeiro a gente espanta com vassoura, seja no Leblon ou Ricardo de Almeida – onde, aliás, pisei num esplêndido Terreiro de Umbanda bem a tempo da celebração das Crianças e dos Beijadas. Eparrei, Iansã. Salve, Ogum, Guardião do Universo e Príncipe da Paz.

Andei. Vi. Conversei. Ouvi. As histórias do Tio Julio, as lembranças de prima Márcia, os desvarios consumistas de Madame, as poesias cadenciadas de Leo, as músicas de Noel rosa, a algaravia evangélica de Maria, a doce irreverência das Filhas de Santo, a voz portentosa e corneteira do Celão, a elegância atemporal de Tia Taís e a marra dos Lima encrustada no Antonio Augusto. Despedi da linda cidade pela janelinha do avião. Grande Dama que hospeda tantas pessoas magníficas, seu farewell de luzes e cores confortou o coração dos viajantes enquanto o Boeing circundava lentamente a cidade mais bonita do mundo, de volta ao meu adorável Planalto, aos meus amigos e à minha família tão querida.

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