
Este foi o único anime da estação que acompanhei com certa regularidade, mas ele realmente não estava entre as prioridades. Entre alguns shonen com certa qualidade, como Ao no Exorcist e Nura no Mago, eu estava mais preocupado em terminar GOSICK e algumas questões pendentes com a família Lannister, mas a gurizada do Tumblr me indicou com fervor.
noitaminA, Sua Linda
No. 6 levou nas costas a difícil missão de segurar a programação noitaminA, um bloco de animação (bem) noturno da TV Fuji no Japão, que desde a estreia do excelente Tokyo Magnitude 8.0, traz as melhores animações exibidas pela TV de lá. Ao contrário do marasmo que tomou conta das animações diurnas – causado em parte, é verdade, pela longa crise que aquele país enfrenta há quase duas décadas – os animes exibidos no noitaminA surpreendem com roteiros esmeradíssimos e traços empolgantes e abordam assuntos delicados com muita sensibilidade. Foi o caso de Hourou Musuko, um anime que abordava a transexualidade com uma sutileza jamais vista – Tokyo Magnitude 8.0, mesmo, foi das animações de maior audiência na época, apesar do horário ingrato de exibição.

Esperava-se de No. 6, portanto, algum assunto cabuloso como os enigmas esotéricos de Occult Academy ou uma ficção psicodélica tal qual Fractale. Bem, o anime poderia ter seguido qualquer um desses caminhos, mas a equipe preferiu outro caminho: adaptou a novel de Atsuko Asano na forma de uma fábula deliciosa sobre amor e amizade dentro de um delicado contexto ditatorial, um esforço admirável para apenas 11 apertados capítulos.

A Cidade que Tudo Vê
Logo no primeiro episódio tomamos contato com a cidade No. 6, uma das seis cidadelas criadas com o intuito de preservar o melhor que a tecnologia e conhecimento humano criou e disseminou pelo mundo antes que a guerra viesse e acabasse com tudo. Dentro das cidades em geral, e em No. 6 em particular, vive-se a utopia do bem-estar social justo e meritocrático: se o cidadão apresenta altas habilidades na infância, ele e a família logo são alocados nas melhores habitações da cidade e recebe o top de linha em educação e todo o resto.
É o caso de Shion; com um QI bem alto, ele esforça-se para futuramente ser um ecologista (profissão deveras importante num mundo em agonia, vamos combinar). Ele e sua amiga Safu desfrutam a aurora de seus doze anos estudando na melhor escola, morando nos melhores bairros, e com preocupações mais próximas do Classe Média Sofre do que de qualquer hecatombe específica. Bem, no caso de Shion não é assim: durante certa noite tempestuosa, na qual ele se mostra bem consciente do seu engessamento no status quo, ele recebe a visita de um fugitivo ferido no braço que – oh – tem a mesma idade que ele. E aí começa a história.

O Gyabbo aponta que a atmosfera extremamente funcional da cidadela remonta ao Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, mas identifiquei muito mais traços orwellianos no condicionamento da população – a onipresente vigilância na vida pessoal das pessoas, a pressão psicológica exercida pela autoridade, sem nome e sem rosto, refere-se diretamente ao Grande Irmão de 1984.
O susto da invasão logo se torna uma miríade de cuidados e troca de ideias entre as crianças, e a amizade logo nasce – ah, a infância. A cidade, contudo, está atrás de Nezumi, o fugitivo, e ele vai embora de madrugada. A negligência de Shion para com a cidade – neste caso, ter denunciado o foragido à polícia – acarreta na perda de todos os seus privilégios, e 4 anos depois o sonho de ecologista deu lugar à dura realidade de zelador de parque. A vida seguiria tranquila assim, mas os incidentes que decorreram a partir do surgimento de uma estranha vespa que se alimenta de seres humanos coloca Shion em contato, mais uma vez, com Nezumi. E aí de fato começa a história.

Desenvolvimento Consistente
Os primeiros episódios dão duas impressões díspares, mas não de todo incorretas: 1) estamos diante de um shonen bem chatinho ou 2) esses dois vão se pegar logo, que m***a de yaoi.
Se Kenji Nagasaki & equipe espelhassem a história nos animes diurnos, de fato tudo descambaria para apenas ação descerebrada e explosões – elas existem, claro, mas são comedidas e bem colocadas. O ambiente em si não permite que uma história parada se desenvolva, apesar dos atos iniciais, mas a história, em si, não é o cenário (embora a cidade por si só seja de fato um personagem), e sim os personagens. A ação toda é mero pano de fundo para que Shion resolva seus conflitos e conheça as motivações altamente individualistas de Nezumi com maior profundidade, enquanto um tenta salvar a vida do outro. A Nezumi cabe tentar entender como diabos Shion sobreviverá na favela inóspita onde eles vivem, bem além dos muros que protegem o welfare state farsesco de No. 6.
Boa parte do anime aborda com bastante intimidade no conflito de personalidades e modus vivendi dos dois. Shion, amistoso e solidário, se não é acostumado a ser rico, o é pelo menos a viver com dignidade, verá com olhos ingênuos o pior dos mundos: a fome e a necessidade quase animal de sobrevivência. Nezumi, por outro lado, desconfiado de tudo e todos e muito bem versado na difícil arte de sobreviver inteiro, toma para si a missão de ensinar o Shion a não morrer e, sobretudo, não ser morto por ele.
Desde o primeiro episódio tem-se o indício que a amizade entre os dois irá dar um passo além, mas mesmo isso é tratado com delicadeza e naturalidade. O mundo pode ser uma droga, mas a vida que eles constroem juntos fica à margem de todo o lodo de dentro e fora de No. 6, ainda que muitas das diferenças entre Shion e Nezumi sejam impossíveis de conciliar.
Até mesmo isso, contudo, muda de figura quando a cidade passa a ter sede de sangue.

Considerações
Segundo o ANN, este é o primeiro Anime no qual Kenji Nagasaki é diretor – só fui notar que a produção era do estúdio BONES no final do último episódio. No entanto, dentre os inúmeros animes da BONES que assisti, este é um dos poucos trabalhos cuja fotografia e cores utilizadas são mais escuras e “reais”, carregados nos tons sépia e nas cenas de pôr do sol – em geral, eles adotam uma estética mais próxima do cartum, com cores vivas e brilhantes, além do CGI não ser tão evidente quanto nos animes da Gonzo. Como de praxe, a BONES fez um excelente trabalho tanto na animação quanto na trilha sonora.
De modo geral, No. 6 honrou a tradição noitaminA e apresentou algo inesperado: quem achou que era outro shonen foi (bem) surpreendido e quem achou que era shonen-ai… também. Talvez tenha rolado certa entusiasmo nos corredores do estúdio: é o primeiro anime BONES a ser colocado no prestigioso bloco da Fuji TV.

Notas do Sátrapa
- Coadjuvante de Luxo: Karan, a mãe de Shion, por falta de quem escolher (os personagens principais estavam tão bem que o elenco secundário SUMIU).
- Badass que Morreu Antes de Todo Mundo: não teve! Isso é um milagre. CHORA MAES HUGHES!

- Vilão Foderoso: nenhum digno de nota. (!!)
- Casal 20: Shion e Nezumi, os Tumblrs e DeviantArts que o digam.
- Pirataria: fomos poupados de ver “Somy” e “Fanasonic”. Há menções frequentes a Shakespeare, mas como não é marca… OK.
- Menina-tsundere-que-ama-o-protagonista: Safu – mas ela não é bem tsundere, e InuKashi – mas ela não é bem menina. Ou é? Vai saber.



