Agora com um novo anime saindo em abril de 2009, chegou a hora de revisitar essa maravilhosa história, que já foi objeto de resenha.
Em Rizenpool, um vilarejo rural esquecido num canto mais ou menos no sudoeste de Amestris, Edward e Alphonse perdem sua mãe, Trisha vitima por uma fulminante doença e também, por assim dizer, devido a intenso desgosto (sete anos, se não me falha a memória) pela fuga misteriosa de seu marido, Hohenheim. Este senhor, um poderoso alquimista, deixou todas as suas anotações guardadas em seu gabinete, os quais foram objetos de intensa curiosidade por parte dos filhos, praticamente autodidatas no
assunto.
[pausa para o café] “Mas como assim, alquimista?” Aquela coisa medieval que todo mundo estuda vagamente na escola”?
Bem, mais ou menos. Reconheçamos que Hiromu Arakawa foi muito feliz em sua pesquisa e colocou, de modo vago mas bem a seu modo, os dogmas materiais e espirituais mais importantes que compõem o conceito da alquimia (usualmente tratado como uma pré-ciência, segundo o pensamento científico moderno), embora naturalmente — até mesmo para a história ter mais ação e não virar uma paródia barata de Paulo Coelho (como se só ele não fosse o bastante) — a transmutação e manipulação da natureza seja, de início, o conceito mais visível na história. Seguindo esse raciocínio, a transmutação de materiais segue um princípio básico e inabalável: para produzir determinada quantidade de material, deve-se possuir
outro material com quantidade equivalente. Se você quiser obter um quilo de ouro, precisa ter outro quilo de, digamos, carvão, para efetuar a troca (transmutar materiais de naturezas distintas, como de água e madeira para papel, obviamente é uma tarefa muito mais árdua). Este é o mote principal do desenho e do mangá, embora neste último a idéia seja mesclada com os outros conceitos mais espirituais da alquimia.
Os irmãos Elric não consideraram, no entanto, que a alquimia é muito mais profunda do que a troca equivalente faz parecer. Fizeram pouco caso da influência que a energia da própria vida, do espírito, teria sobre seus experimentos e foram adiante sem se importar com o maior tabu da alquimia de Amestris: a transmutação humana. Com essa técnica, os Elric tentaram recriar a mãe a partir da “fabricação” de um ser humano, no que resultou, obviamente, em tremendo fracasso.
Al perdeu-se numa espécie de limbo, e, para trazer pelo menos a alma do irmão de volta, Ed sacrifica mais um pedaço do próprio corpo. A muito custo, conseguiu fixar Al numa armadura velha da coleção de seu pai por meio de um selo de sangue, e a partir daí a jornada em busca de reparar tudo que eles perderam nesta noite fatídica começa.
A vizinha Winry Rockbell e sua avó são especialistas em próteses mecânicas denominadas automail, que, junto com a alquimia, são os atrativos científicos da série. As duas consertam o estado lastimável de Ed e Winry eventualmente acompanha-os nas andanças por Amestris, a fim de consertar as próteses de Ed, constantemente submetidas à fadiga excessiva dada a infindável série de escaramuças que eles arranjam, especialmente com os homunculi, seres artificiais hominídeos criados e desenvolvidos a partir do uso da pedra filosofal (reconhecíveis pelo círculo de Ouroboros tatuados no corpo).
O anime e mangá contém diferenças substanciais: os personagens são praticamente os mesmos, um ou outro “figurante” ganha mais destaque para dar andamento ao enredo da série animada, há adição de alguns personagens não existentes na história original e, acima de tudo, os vilões são tratados de forma diferente. A partir do momento em que as histórias se separam, o anime corre o eterno risco de cair no lugar-comum dos “fillers” criados na TV — aquela coisa de mundos paralelos, reaproveitamento ad infinitum de personagens que todos julgavam mortos e enterrados — mas
felizmente o roteiro é maravilhosamente bem acabado. O episódio final da série, afora a notória ambigüidade de não encerrar definitivamente (talvez pra faturar um pouco mais com OVAs e filmes), é dos mais bonitos e melancólicos. E o filme também é de encher os olhos e fecha a trama desenvolvida pelo estúdio Bones com chave de ouro.
O ambiente que vemos na tela e no papel é o mesmo. Uma sociedade militarista governada com mão de ferro por um führer (ditador) King Bradley, simpático para com os seus e extremamente violento e xenófobo com os povos vizinhos (a
analogia, no filme, da Alemanha dos anos 1930 e a marginalização do povo cigano, Roma, é muito pertinente). A surpresa de tudo não está nas freqüentes guerras civis e/ou com os vizinhos periféricos, mas sim o motivo dessa matança ininterrupta.
O mangá dá mais ênfase à origem dessa briga, na qual os Elric são personagens-chaves não só na resolução, mas na origem de tanto desequilíbrio. De norte a sul do país todo o tipo de subterfúgios está conectado a histórias perdidas, antigas, de dor e morte, tudo intrinsecamente ligado a alquimia e aos Elric, no final das contas.
O elenco de apoio é fenomenal; Roy Mustang, os irmãos Armstrong (no anime somente Louis tem destaque), Riza Hawkeye e tantos outros são protagonistas de excelentes histórias paralelas e despertam tanta simpatia quanto os heróis.
Olha, não dá pra perder. Vale a pena.